quinta-feira, 3 de junho de 2010

Um matador no 17º andar


Ramón sentiu o coração bater apressado, quando abriu a velha arca. Abraçados pela espessa camada de madeira, estavam os mais invejáveis tesouros: seu machado, sua corda, seu facão. Teve os olhos quase banhados por lágrimas, ao ser catapultado às lembranças memoráveis de sua vida de psicopata. A mulher grávida partida em dois pedaços pelo machado. O seu primo, enforcado e posteriormente pendurado pelos testículos. Sua mãe, desossada pelo facão. Agora, feliz, colocava em sua intimidade mais um objeto: o candelabro, com o qual, minutos atrás, quebrara a cara de sua vizinha. Entretanto antes de poder deliciar-se com aquela sensação, que surgia somente após matar alguém, ele ouviu uma sirene na rua. Estridente, chata, redonda: a polícia! Decerto, já tinha sido acionada e, sem escapatória, ele seria preso. Ramón estava a par do seu trágico destino. Na realidade até o tinha escolhido. Ele podia tê-la envenenado num feriado cristão ou esfaqueado-a numa noite tranqüila. Mas não! Simplesmente partiu a cara da velha, às três da tarde, na frente do marido caduco e dos netos: quatro horrendas crianças de cabelo vermelho. Sim! Agora restava apenas esperar... Esperar os policiais chegarem ao seu andar – 17º e o elevador estava quebrado... Esperar que tocassem a campainha, pedissem para entrar e exigissem que a arca fosse revelada. A arca... A arca... Precisava livrar-se dela. Ramón pensou em jogá-la pela janela, mas desistiu. Seu José – o porteiro detestável – estava de férias, e esta arca, cheia de tesouros, só merecia espatifar-se no chão, se fosse na cabeça daquele odioso homem. Decidiu apenas arrastá-la para longe dos olhos dos policiais. Mas antes que começasse tal ação, um feixe de luz cruzou a janela e fez brilhar algo no cantinho da caixa. Ramón estendeu as mãos e tocou o brilhante mistério: um límpido e virgem alicate de unha. Mundial. Como num reflexo, Ramón olhou para suas próprias unhas. Estavam O.K.! Mas seus dedos não estavam nada bem. Fechou a arca, sentou-se e neste rápido intervalo, em que aguardava a chegada dos policiais, decidiu cortar os próprios dedos. Estavam feios. Sujos. Amarelos. Começou pelos dedos dos pés. Claro, claro, eram mais curtos. Meteu a lâmina no dedo mindinho e segurando firme, para o alicate não escapulir, cortou-o fora. Miraculosamente, não sentiu nada! A excitação, que aquele ato trazia, o adormecia como um leproso. Cortou os demais dedos dos pés e, finalmente, viu-se diante do polegar. Gordo! Sangrento! Ossudo! Este teria de ser cortado aos poucos, curtindo o momento. Mordiscou a ponta do dedo. A sensação era boa, como se estivesse sendo lambido pela áspera língua de um felino! E prosseguiu, mordida a mordida, até o osso tornar-se aparente. Quando a lâmina triscou o osso daquele dedo, um choque cruzou-lhe a espinha. Uma dor gostosa... Finalmente estava curado da lepra momentânea! Apertou o osso com força e começou a puxá-lo para fora da carne. Em segundos, numa habilidade que somente os psicopatas dominam, os ossos de seu pé tinham sido expostos. Puxando afora o osso do polegar, ele descascou (como se faz com uma banana) o pé inteiro. E continuou descascando as pernas, a barriga, os braços. Percebeu, ensimesmado, que debaixo de si havia outro eu. E já com o corpo totalmente descascado, arrancou e virou do avesso a pele do rosto. Quando extraiu da cabeça o último tufo de cabelo, pegou um espelho, que descansava na mesinha de centro, e admirou-se. Lindo! Elegante! Feminino! Com enormes cílios negros a maçãs do rosto salientes. Fria e indiferente, a campainha soou, resgatando-o do ególatra transe e, Ramón, regurgitado e renovado, foi atender a porta. “Pois não?”, ele disse, com lábios vermelhos, mas voz inalterada, “em que posso ajudá-lo?”. O policial ficou em choque ao vê-lo e imediatamente abaixou a vista para disfarçar o espanto. Mas Ramón notou (quem não notaria?) o enorme pau do guardinha enrijecendo-se sob o uniforme apertado. “Hummmm, travesti”, teria dito o nervoso visitante, se Ramón não tivesse enfiado o alicate, no olho do guarda, espatifando o Ray-ban falsificado, que trazia pendurado sobre o nariz.

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