domingo, 28 de outubro de 2012

para sempre


para I.C.
Só existe uma coisa pior do que sentir saudade: não poder mais senti-la.
Pois para tudo há um tempo! Houve um tempo para te amar e outro para te esquecer... E estes dois tempos já se foram e não tenho mais o direito de sentir tua falta. Todavia, quando se trata do meu amor por ti, eu talvez tenha aprendido a conjugar os verbos num tempo estranho. Um tempo que não é o infinitivo, mas é infinito. Um tempo verbal que não habita no indicativo nem no subjuntivo... Que perdura no mais que perfeito... Um tempo chamado para sempre.
Pois para sempre terei direito de sentir saudade tua quando eu ler um poema da Bruna Lombardi ou quando ouvir uma música do Texas. E, neste tempo, não importa quantos amores tiveste depois de mim, nem se estamos separados por passagens aéreas ou por olhos que fingem não se encontrar. Pois este é um tempo invariável. Estático. O que foi nosso, para sempre será.
As nossas lágrimas – haja o que houver – para sempre serão nossas; e aqueles teus risos, eternamente meus. E para sempre sentirei saudade das vezes que dormimos juntos. 
E não importa se a última flor da orquídea caiu há meses e teima em não nascer de novo. Ou se não sei por onde andas... Nem com quem falas... Nem se realizaste teu sonho de conhecer New Orleans.
Pois tu lembrarás de mim para sempre quando entrares na locadora de vídeo e te deparares com a foto de Ingrid Bergman sorrido ou toda vez que a Scarlett O’Hara disser “amanhã é outro dia”. Ou sempre que alguém recitar um poema do Vinícius. Ou quando uma música da Nina Simone rodar nalgum playlist desconhecido.
E, sem dúvida, lembrarás de mim em todos os teus futuros “eu te amo”. Pois eu fui o primeiro a acreditar em ti. E lembrarás de mim quando te fores para sempre para um lugar incógnito. E eu for embora fazer meu doutorado no Rio, ou em Paris, ou em São Francisco, ou no Nepal. E nos apartamos não apenas da vista... Mas nos perdermos no tempo, na vida, na poeira de que é feita o cosmo.
Porém, mesmo separados, para sempre haverá dois amantes correndo na Golden Gate, como vultos distantes, de rostos irreconhecíveis. Mas estes dois amantes, infelizmente, não serão eu e tu. Porque, hoje, não posso nem sentir saudade, quiçá sonhar com o frio cortante do qual prometi te proteger... E tu a mim.
Neste tempo de não sentir mais saudade, aprendi que o destino é repleto de cem portas que se abrem para mais cem portas. E lamento que tenhamos nos perdidos nalguma dessas travessias e que o nosso para sempre tenha se misturado com para sempres alheios. Mas fico na esperança de que um dia encontremos o fio que Ariadne deixou no labirinto do Minotauro e consigamos nos reencontrar. Noutro tempo mais feliz.
Ou torço para que, no final das contas, todas as portas acabem levando para um mesmo lugar e nos encontremos de novo... Mais maduros. Porque afinal não sabemos o que o destino nos reserva.
Enfim, neste labirinto de amores por ti. O meu sangue erra de veia e teima em não entrar na porta onde está escrito “esquecer”. E para sempre vou te amar. E para sempre vou te esperar...
Até o dia em que meu olho se fechar na treva e para eu renascer noutra vida, como um pássaro, que cantará, noite e dia, te procurando por entre as folhas verdes das árvores mais altas.
Até que esse pássaro morra... E renasça como outro bicho... E a procura continue... E tudo comece de novo...
Para sempre.
Esperando por ti.

domingo, 10 de junho de 2012

Vou Esperar



Clique aqui, para ouvir a música que Marcel Barretto fez desse poema.

(talvez)
Um dia tu dirás que me ama
Vou esperar... Mesmo que este dia esteja longe
Vou esperar tu encostares em meu peito e teres vontade de dormir
Da mesma forma como eu me aconchego nos teus abraços...
Sentindo-te como ninho, cama.
Enlaçando-te fortemente com braços nus e sentindo-te contra mim
Quente e macio.
Vou esperar!

Vou esperar quietinho um dia tu me admirares
Como eu admiro teus gestos calmos
Esperar tu encontrares nos meus lábios a suavidade que encontro nos teus
Ao mesmo tempo em que nossos cílios se tocam
Piscam e nossos olhos se enxergam tão de perto... Pretos.
Vou esperar cada abraço teu...
Cada boa noite antes de dormir
Como se essa fosse minha prece,
Meu caminho para o céu, minha salvação!
Esperar pacientemente o meu corpo se encontrar ao teu
Um dia, quem sabe?
Belamente... Completamente...
Ser apenas um.
Esperar o amor surgir nos teus olhos grandes e negros
Esperar que me olhes cada vez como uma primeira vez...
Apaixonando-te de novo... De novo... De novo...

No futuro, vou esperar tuas rugas refletirem as minhas.
Tuas esperanças se tornarem minhas expectativas
E meus sonhos virarem teu maior empenho
Espero tua face corar a cada felicidade nossa
E tua mão tentar conter as lágrimas nas inevitáveis tristezas
Espero caminhar
Caminhar de mãos dadas... Unidas... Úmidas... Suadas...
Quero te ver temendo o futuro
Entender por que não róis as unhas,
Vou esperar...
Esperar ao teu lado...
Esperar pelo grande dia que tu dirás “eu te amo”
E eu direi o mesmo.
Então o mundo poderá acabar
O rio salgar e morrer todos os peixes
O sol apagar
A noite ser eterna, e a existência humana se findar
Porque nós dois teremos um universo à parte
Girando... Girando...
Um cata-vento...
Uma eternidade...
Um homem para amar intensamente
Um amor verdadeiro...
Inteiro.

Saulo Sisnando
* escrito em dezembro de 2001.

domingo, 20 de maio de 2012

A crônica do amor platônico ou A mais complicada matemática


Clique aqui!!! para ver o vídeo

Ô coisinha complicada é esse tal amor. Você já pensou em quantas pessoas existem na sua rua ou no seu bairro? Centenas, certo? Pense então na cidade em que você vive, deve haver milhões de pessoas mais ou menos iguais a você. Se pensarmos no país, serão centenas de milhões; e no mundo, então, nem se fala!, são não sei quantos bilhões. Imagine que nessa infinidade de pessoas que existem, você escolheu ‘uma’ para amar. Agora vamos passar pela cabeça a remota possibilidade de que mesmo existindo esse oceano de pessoas, ocorreu a conjunção cósmica perfeita que fez o ser que você ama te amar de volta. Matematicamente parece ser um resultado bem improvável pensando nesses bilhões corpos que passeiam pelo mundo. Eu creio que é por isso que tem tanta gente sofrendo de amor (escrevo este texto porque sofro por um!), pois é uma sorte danada você amar exatamente a pessoa que te ama. Se você é um dos felizardos dessa loteria mais difícil que a MegaSena: agarre esse homem, case logo e tenha muitos filhos, porque a sorte pode não bater de novo na sua porta.
Agora se você é um dos sofredores, um dos ímpares dessa bizarra matemática; resta esperar! Esperar o telefone tocar, mesmo tendo certeza de que ele não vai ligar, resta abrir a caixa de e-mails a cada 5 minutos para ver se ele não respondeu aquele cartãozinho virtual gracioso que você enviou anexado a uma mensagem milimetricamente calculada. E quando chega o correio (o tradicional), é aquele alvoroço, querendo ver se ele não mandou alguma carta, mesmo sabendo ele não faz a menor idéia de onde você mora e mesmo que tenha a certeza de que ele não é tão romântico a ponto de mandar uma carta de amor; pelo simples motivo que ele não te ama! No entanto, não custa nada sonhar com isso, pois não há nada mais belo que uma carta de amor. Enfim, resta sofrer! Resta mandar mensagens pelo celular perguntando como ele está passando (e ele nunca responde!), resta dirigir prestando bastante atenção pelas calçadas porque um dia ele disse que te viu passando de carro, resta se arrumar com a roupa mais bonita para passear no shopping, porque da última vez que você o encontrou foi na praça de alimentação do Iguatemi.
Há horas em que se tem certeza de que tudo isso é karma de alguma encarnação passada, onde ele foi arrasado, espezinhado, pisado e maltratado por você. Pronto, é isso! Agora nessa vida você é quem vai ter de pagar pelo que fez. Só mesmo um karma de vida passada para que ele sempre te encontre no seu pior dia... Quando você foi ao cinema com aquela blusa vermelha de listras amarelas que te deixa enorme de gorda (um bolo-fofo), quando ele vai justamente assistir aquela peça de teatro ridícula que você fazia parte e todos os seus amigos comentaram que você parecia uma sapatão. Só mesmo karma, para explicar a sua voz que treme tanto todas as vezes que você o encontra; só karma, para fazer com que na hora H você esqueça todos as perguntas e opiniões que fariam ele te achar tão inteligente. Só mesmo sendo um karma dos brabos!
Apesar de eu odiar frases conformistas, na mesma proporção em que odeio as vidas passadas, creio que no final vai acabar dando certo e alguém lá em cima deve estar guardando alguma para você. Sei lá, você vai ganhar o prêmio jabuti por causa do romance que escreveu inspirado nesse amor; vai emagrecer, ficar linda e ele vai cair na real de que sempre te amou; ou talvez algo melhor, você vai lá na farmácia comprar algum remédio para as suas arritmias que recomeçaram e de repente pára ao seu lado um homem maravilhoso (que também está sofrendo de amor!). E ele esta ali, parado, comprando um remédio para dor de cabeça e, sem segundas intenções, você acaba ensinando aquele chá milagroso que a sua mãe sempre fazia. Vai cada um para a suas casas e após alguns dias ele te liga para dizer que nunca mais sentiu aquelas terríveis dores e que deve essa grande felicidade a você. Então em 5 minutos no telefone, já deram várias gargalhadas, você já sabe que ele detesta purê de batata e que, como em seus sonhos, ele lê poemas do Mario Quintana. Bem, aí marcam um cinema, ele a vê com uma roupa maravilhosa e com todas as suas opiniões e frases feitas que ele finge não notar que são feitas só para te agradar. Depois disso, vocês mandam pras cucúias a dificílima matemática dos milhões e descobrem que nem precisavam ter sofrido tanto.
Mas se esse lance de vidas passadas for sério mesmo, permaneço fiel àquela frase conformista. Dê um tempo, espere, faça coisas: matricule-se em aulas de fotografia, escreva bem muito, dedique-se ao estudo do Glam-Rock inglês ou mergulhe na oceanografia. Leia muitos livros de astronomia, tente entender as várias dimensões do universo e a teoria da Ressonância Mórfica, viaje, veja de perto os quadros do Francis Bacon. O tempo vai passando, passando, e você pode ir embora. Se mudar lá pro Nepal depois que você passou no Instituto Rio Branco e virou embaixadora. Talvez ele vá mesmo lá pros Estados Unidos fazer aquela pós-graduação em reengenharia de software, talvez ele se mude para sempre pra Dinamarca. Vão ficar vivendo, independentes um do outro, até o belo dia em que, numa lotada sessão de cinema, aquele belo coroa alvo senta ao seu lado e você se vira e reconhece aqueles olhinhos de foca, aqueles dentes que não estão mais presos no aparelho e, acima de tudo, as covinhas que ainda são lindas. Ele vai olhar para você e não te ver com a sua melhor roupa (mas também não vai te ver com aquela blusa vermelha medonha!), as frases prontas continuarão fugindo da memória. Mas vai gostar de você mesmo assim, então vão chorar pelo tempo perdido e se consolar pelo grande caminho de tijolos amarelos que ainda resta pela frente, caminharão de mãos dadas, num passo acertado de quem não tem tempo a perder. Um belo final, não?! Só precisa ter paciência.
Portanto, meu amor, depois disso tudo, só me resta dizer uma última coisa: “eu estou te esperando nalguma sessão de cinema!”
Saulo Sisnando escrevendo como
Maria Eduarda

quarta-feira, 16 de maio de 2012

porque eu te amei...



Eu não te amei pelo teu andar de pássaro,
nem pelos teus gestos raros,
nem pelo teu hálito de Halls preto,
nem pelos teus olhos, que piscavam em tempos diferentes. Primeiro um, depois o outro.
Não te amei pelos filmes que vimos juntos, nem pelos textos que leste pra mim.
Meu amor por ti, não transitava pelas tuas mãos que alisavam meus cabelos, nem pelo sonho de nos mudarmos daqui.
Não tinha a ver com os presentes dados...
Sempre errados:
ou frouxos demais, ou apertados demais. 
Mas não importava, pois tuas digitais na embalagem eram mais extraordinárias do que o tamanho certo da roupa.
De fato, eu quase te amei pelo vento... Que balançava o meu lençol quando, de madrugada, te levantavas da cama e ias embora... Abrindo a porta e deixando formar uma corrente de ar no quarto.
Não te amei pelos teus atrasos, nem pelo teu gosto musical. Não te amei pelo teu beijo, nem pelo teu corpo longo e perfeito, cheio de estrias de quem cresceu demais. Não te amei pela bagunça que fazias em meu coração, nem pela maneira como posicionavas o banco do meu carro, deixando o assento quase deitado.
Não te amei pelas festas que foste sozinho, porque não tinhas coragem de dizer para ninguém que tu me amavas, nem pelo teu companheirismo, ou tua saliva doce, ou pelas lágrimas presentes no nosso amor.
Não te amei pelo jeito como eras quando estavas comigo. E não te amei pelo meu espírito... Sempre conectado com Deus quando eu estava ao teu lado.
Eu não te amei por que simplesmente dormiste tantas vezes em minha companhia, ou por que foste a única pessoa que consegui continuar amando mesmo na inconsciência do meu sono.
Eu não te amei por que equilibraste minha cama. Nem por teres sido o mais perfeito contrapeso que eu poderia ter pedido ao universo. E, sabe!?, não foste apenas o contrapeso de minha cama. Mas o contrapeso certo de minha vida.
Eu não te amei por que tu me amavas...
Ou  por que te deixaste ser amado...
Ou pela certeza de ser deixado em breve...
Eu te amei por nada...
Eu te amei, apenas, por que tu eras tu. E eu amava a ti e só a ti.
Eu te amei por que nunca te pedi nada... E mesmo assim me deste tanto.
Mas sempre
...
nas entrelinhas.





segunda-feira, 12 de março de 2012

O poder que as palavras não têm.




Para Neyara,
na esperança de que, um dia, uma voz atenda do outro lado da linha.

Sempre ouvi dizer que palavras tinham poder. E por isso decidi ser escritor, pois quis acreditar que minhas palavras poderiam mudar o mundo. Mas hoje, enquanto escrevo este texto, meu pai está doente e, de repente, toda a fé que tive na minha profissão se perdeu. Afinal eu sempre rezei para ter alguém do meu lado na hora de sua morte. Mas cá estou eu: sozinho! Pois meus amores me deixaram e minha mãe morreu cedo. E embora eu ainda sinta a presença de todos, eles não poderão segurar minha mão, quando meu pai der seu último suspiro.
E se essas benditas palavras tivessem poder, minha mãe estaria aqui e eu faria alguma destas minhas viagens ao seu lado e a perguntaria se ainda me ama – mesmo após a morte – e se ela me acompanha de pertinho ou se me vê apenas de longe, como se nós – os vivos – fossemos pontos brilhantes no firmamento do paraíso. E finalmente abandonaria aqueles meus atos alucinados e nunca mais ligaria para o antigo número de celular torcendo para que ela me atenda... E, sozinho, no carro, com olhos cheios de lágrimas, não travaria longas conversas imaginárias, mesmo sabendo que ela está morta.
Se as palavras realmente tivessem poder, eu conseguiria voar bem rápido a ponto de me despedir da minha avó. E teria certeza de que hoje ela está no céu, cuidando de minha mãe e cultivando laranjas no pomar de Deus, e fazendo picolés para vender para as crianças que morreram jovens demais. E Deus me levaria antes do programado, mas em troca de minha ida inesperada, ele devolveria às mães desoladas a chance de verem seus filhos mortos uma última vez.
E eu não sonharia mais com meu primeiro namorado. E faria o meu remorso ir embora e eu me perdoaria por tê-lo feito sofrer tanto – com essa minha mania louca de maltratar aqueles que mais amo. E eu traria saúde de volta para alguns amigos queridos. E daria aos amigos solitários a crença de que serão muito felizes, pois Deus não teria criado pessoas tão lindas, para caminharem sozinhas no mundo. E eu não teria vergonha de ainda pensar em ti... E esqueceria aquelas últimas palavras que tu me disseste, e que ainda ecoam na minha mente, como se fossem o barulho agudo de pequenas pedras sendo batidas umas contra as outras, como uma risada irritante de minúsculos duendes malignos. E pararia de sonhar que um dia te encontrarei de novo, e me entregarás algum panfleto na rua e eu te amarei à primeira vista (pela segunda vez). E eu seria mais bonito, e mais homem, e minha voz seria mais grossa, e eu escreveria tão lindamente a ponto destas palavras terem tanto poder que tu não conseguirias viver sem mim. Mas ao mesmo tempo, eu uniria amantes que moram a mais de dois mil quilômetros. Mesmo que estas pessoas fossem tu e ele... Afinal para te ver feliz, eu faria qualquer coisa. E meu coração finalmente esqueceria os passos de uma coreografia imanente e não bailaria secretamente quando tu sentas ao meu lado, nem suspenderia as contrações cada vez que tu danças... Ou quando tu andas com aquele teu andar saltitado de pássaro... Posto que eu te amei, não pela tua voz, nem pelos teus pensamentos confusos, ou pela tua juventude, mas pelos teus gestos conscientes cheios de principio, meio e fim.
Se realmente as palavras tivessem poder, alguém leria estas letras e me amaria na mesma quantidade que eu te amo. E antes de terminar o texto, procuraria meu e-mail em algum canto desta página e me escreveria uma declaração de amor. Pois eu também mereço. E, ao ler estas linhas, tu me amarias de novo e um lindo corvo despontaria em minha janela e eu o seguiria... E ele me levaria a ti. E tu estarias parado, na calçada em frente ao teu prédio (como sempre fazíamos aos domingos na hora do filme) e tu estarias segurando uma nota de cinco dólares, na qual meu nome e meu telefone estariam escritos em vermelho.
E ao entrar no meu carro, eu não perguntaria onde tu estiveste nestes meses... Nem se o amaste mais do que a mim. Porque sei que sim! Eu simplesmente te abriria um enorme sorriso, por não haver no mundo felicidade maior do que esta de te ter de novo.
Se as palavras tivessem poder...


Saulo Sisnando

09 de março de 2012
(e-mail: saulosisnando@hotmail.com)


Ilustração: Pedro Machado

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Saudade em tempos de facebook




Para meus amigos que sentem saudade


Antes eu me perguntava o porquê de sentir tanta saudade. Saudade de tomar banho de mangueira no quintal, pois agora moro em apartamento. Saudade do cheiro do chá de camomila e do colo de minha avó. Saudade de quando meu avô saía de casa e trazia balas de café e de quando ele falava italiano comigo, mesmo sem eu entender nada.
Mas um dia desses, descobri que eu nasci no Dia da Saudade - 30 de janeiro. E numa dessas obras do acaso, meu pai me registrou com o nome de Saulo. O que faz com que mais da metade do meu nome seja dominado pela saudade. Sau(lo)dade.
E hoje, a saudade, que sempre foi três de minhas cinco letras, tomou conta de todo o meu alfabeto. E desde que tu foste embora, eu fiquei sem nada. Afinal saudade é coisa que ninguém tem. Saudade é não ter! Pois não se relaciona com o amor que ainda tenho, mas com o sentimento que tu tinhas por mim... Mas não tens mais.
Saudade era o lugar onde habitavam teus gestos, teu toque, teu carinho. Saudade é um ambiente dentro de mim onde a luz apagou e tudo se petrificou; um cavo escuro que não ouso tocar, mesmo estando tão perto.
Saudade é voltar pra casa e encarar todos os objetos, e móveis, e quadros, e descobrir que tudo agora tem dois lados. O que os objetos realmente são... E o que eles eram quando tu existias no meu mundo. Saudade é sonhar que tu retornes ao nosso lar e dê sentido à margem direita da minha cama, e traga a vida de volta aos porta-retratos, e aos livros da estante, e aos peixes do aquário.
Saudade é ver comercias de filmes na TV e lembrar que vimos estes filmes juntos. E saudade é nunca mais assistir certo filme do Woody Allen porque foi a primeira vez que fomos ao cinema.
Saudade é manter o teu telefone na minha agenda mesmo sabendo que teu número mudou... E ainda assim discar, sabendo que ninguém vai atender. Saudade é desconhecer teu novo número e fazer milhões de combinações absurdas começando com oito um. E saudade... É sentir falta de ti, mesmo sabendo que teu número começa com oito um só para ser mais barato falar com teu novo amor.
Saudade é saber que tu nunca mais vais me mandar um SMS dizendo “boa semana”. Ou “boa prova”. Ou “não importa o que aconteça, eu estarei do teu lado.” Saudade é retornar a ligação para todos os números estranhos que me ligam num desesperado sonho de que possa ser tu.
Saudade é esperar por um contato teu no dia do meu aniversário. E passar o dia todo agoniado... Pedindo a Deus para que me mandes um simples tweet dizendo “feliz aniversário @saulosisnando.” E saudade é chorar às 2h00 da manhã do outro dia, quando descubro que tu me mandaste esse tweet.
Saudade é escrever este texto e o meu playlist colocar aleatoriamente aquela música que tanto significava para nós... Saudade é me pegar fazendo coisas, que antes odiava, mas agora faço com prazer e te imaginar dando risada e dizendo: “não te disse que assim era melhor?
Saudade é te bloquear no facebook. E dias depois criar um fake só para ver a fotinho do teu profile. E lembrar como teus olhos pretos são lindos. Saudade é entrar no meu blog para ler os teus antigos depoimentos apaixonados, que ainda estão lá, e que eu tenho tanto medo que, um dia, tu apagues.
Saudade é beijar outros lábios... Para esquecer os teus. E mentir para todos dizendo que já te esqueci. Saudade é ter uma caixinha cheia de lembranças que trouxe de Londres e não ter coragem de entregar. Saudade é sair de casa, torcendo para que alguma coincidência faça teu carro parar ao lado do meu... E eu possa te cumprimentar de longe e teus lábios inaudíveis desenhem um “eu te amo” no vento.
Saudade é o choro que surge enquanto eu digito estas palavras e a desesperada esperança de que as letras sejam fortes a ponto de te trazerem de volta. Porque ainda te amo!
E saudade é a vontade de que o leitor imprima esta página e entregue para aquele amor de quem ainda sente saudade, pois no meu sonho de escritor, já que eu não posso trazer meu grande amor de volta, que estas palavras devolvam ao leitor aquele que nunca esqueceu.
Que o teu volte para ti.
E o meu volte para mim.
E que o buraco no meu peito se feche.
E a saudade seja algo que habite apenas os meus textos passados.
Que tu sejas meu futuro!


Saulo Sisnando

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

PARA UM MENINO QUE DANÇA




Parafraseando o texto de Vinícius de Moraes.

Porque és um menino que dança, eu te prometo o meu amor. Pois danças tão lindamente e mexes mais um lado de que o outro. E te amo porque sinto que quando tu bailas não te dissolves em moléculas... Já que teus movimentos em nada repelem a essência, mas unes sensações e sentimentos, edificando a nossa volta uma muralha que nos protege da mais violenta onda do mar.

E tua dança parece ser feita da mesma eletricidade que corre no meu sistema nervoso... Porque teus movimentos não são calma ou quietude, mas são meu frêmito... Minha paixão! Tua dança é a eletricidade que nos conecta e nos enlaça num só corpo etéreo. E cada vez que bates teu tênis colorido no chão, meu peito treme e eu sinto como se (nesse segundo) tu restituísse ao universo a quantia cósmica que roubamos de Deus no ato da criação.

E porque és um menino que dança, tens essa mania de ser tão sentimental, chorando por motivos desconhecidos, e voltando para casa a fim de dar um ultimo abraço na mãe. Tragédia? Frescura? Excesso de sentimentalismo? Não! Fazes estas coisas encantadoras pelo simples fato de seres um menino que dança, e teres uns dentinhos tortos e salientes que deixam teu sorriso encantador. E são dentes tão incrivelmente alvos que se destacam do teu rosto de barba sempre mal feita e de óculos de lentes transitions que sempre arrebentam as alças e me impedem de ver teus olhos brilhando no sol.

Porque és o menino que dança, nos demos apelidos estranhos e me ensinaste a dançar. E dançaste tão junto de mim que sinto como se nunca mais estivesse sozinho... E viajo para outros continentes... E vou pra Londres... E, neste meu amor, lembro de ti ao ver Billy Elliot. Pois tenho certeza de que terias feito melhor... Simplesmente porque te enxergo com olhos míopes apaixonados que expelem lágrimas pelo teu simples movimento de braços.

E porque és um menino que dança, tens muitos fãs. E dormes em muitas casas me matando silenciosamente de ciúmes. Porque eu amo este menino que dança, mesmo que, na nossa timidez, nunca falemos nada. Afinal sempre nos comunicamos melhor por SMS, quando podemos diariamente dizer vários “eu te amo” sem um ver o olhar constrangido do outro.

E por seres este menino que dança, vieste do Tapanã até aqui só para me dar um abraço antes de tua viagem para Fortaleza... E perdeste a carona quando acreditaste que eu estava ainda em casa, antes de minha viagem para Paris. E não pudeste mesmo me dar um último abraço... Mas pelo telefone, com tua voz miúda, foste tão gentil que senti teus braços cortando dimensões e me envolvendo levemente mesmo estando quilômetros afastados um do outro.

E porque és o menino que dança, eu te amo, pois sempre entras suado no meu carro – após o ensaio – deixando o teu cheiro no ar por algumas horas após a despedida, e porque sempre vais comigo tomar suco no Batistão e ficamos dando “tchau” para desconhecidos que passam na frente do carro. E eu sempre vou te amar, mesmo sabendo que um dia me deixarás... Porque teu sonho é perambular pelo mundo... Nessa tua alma cigana ou mambembe... Mas eu te deixo partir, afinal não é justo que eu monopolize a visão de tua aura mudando de cor a cada giro que tu dás num palco.

E porque és um menino que dança e nunca recebeu flores de um grande amor... Que te prometo um beijo e espero que sintas em mim o perfume das flores que tu nunca recebeste. Porque, pelo meu amor por ti, eu te levaria para morar numa casa com um enorme jardim, cheio das mais diversas flores, só para que diariamente pudesse colher a mais bela flor para te dar. Independente da estação do ano. Afinal eu te amaria na neve ou no sol escaldante.

Isso tudo só porque tu és um menino que dança... E somente porque os pássaros comeram as migalhas de pão e eu esqueci caminho de volta... E apenas porque não sei mais viver sem te ver dançar.


Saulo Sisnando
08.01.2012