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Dia do Orgulho LGBTQIA+

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  Muitas pessoas não entendem o sentido da palavra “orgulho”. Ora, por que nos orgulharmos de sermos gays, ou lésbicas, ou trans, ou bissexuais, ou queers? Muitos associam à ideia de nos sentirmos superiores, melhores aos outros. Àqueles a pensarem dessa forma, pergunto-me: em qual mundo vocês vivem? Existe no dicionário uma acepção da palavra “orgulho” associada a “sentir-se bem” e à “sensação de contentamento em relação a si próprio”. Orgulho, portanto, é dizermos está tudo bem em sermos nós mesmos. Na prática – e para mim! – o orgulho LGBTQIA+ está ligado ao direito de não precisarmos nos sentir errados por sermos gays. É entender e lutar para, em um mundo construído para/pelos heterossexuais, temos direito a uma vida digna e não... não somos menos capazes! É batalhar para, nesse mundo, não termos mais direitos que ninguém, porém apenas aqueles com os quais vocês já nasceram sentindo-se detentores. Orgulho LGBTQIA+ é olharmos para o nosso passado e para todas as vezes nas quais apan

Sobre essa saudade de lugares

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Aos meus leitores e amigos, deixo uma pergunta: por quanto tempo as pessoas mortas continuam morando em nós?  Sepultado há mais de um ano, não falarei hoje sobre a saudade de meu pai, mas sobre o quanto... dia após dia... a ausência de seu corpo, dá lugar a morada dele em mim.  Hoje, e a todo tempo, em pequenas ações e movimentos, vejo-me reproduzindo suas peculiaridades. Percebo-me, por exemplo, assistindo filmes de faroeste de madrugada ou me preocupando, como nunca fizera antes, com as pessoas que tem a mania de deixar a porta do apartamento aberta, mesmo o mundo estando tão violento.  Como meu pai, também me encontro às vezes sofrendo pela saudade – não apenas das pessoas – mas dos lugares de meu passado. Meu pai era assim! Nos anos que antecederam sua morte, muitas vezes sugerimos uma viagem de regresso a Juazeiro do Norte, sua cidade Natal, e ele, irredutível, dizia: “Não quero mais voltar lá”. Agora, eu o entendo com perfeição, pois são incontáveis os lugares de meu passado que,

A AGRESSIVIDADE DAS MINORIAS

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  Ontem uma pessoa me perguntou por qual razão eu sempre ficava tão “agressivo” quando entrava em uma discussão sobre minorias. Bom, decidi escrever esse texto respondendo não apenas a esta pessoa, mas a todos que compartilham o mesmo pensamento: por que as minorias parecem ser tão radicais e briguentas? Porém, antes da resposta, gostaria de chamar atenção para a palavra “agressivo”. Agressividade, segundo o Dicionário tem muito mais a ver com o ato de atacar e provocar do que com a conduta reativa.  Será então essa a palavra certa? Ademais é muito cruel o uso de termos como esse, sempre focados em desqualificar o discurso minoritário, enquadrando o interlocutor como “louco, desequilibrado ou agressivo”, mas sem jamais apresentar contra-argumento. O privilégio coloca pessoas brancas-heterossexuais-cisgênero em escalão de seres portadores de opiniões indiscutíveis e cristalinas e, quando rebatidas, é porque  você  não entende...  você  é agressivo...  você  precisa de tratamento.  O fat

ONDE ESTÁ VOCÊ AGORA?

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  Hoje ele me voltou à mente. Mas com aquela imprecisão de detalhes das pessoas jamais encaradas no rosto. Afinal, não fomos amigos! Surgiu como uma bruma... um fantasma... um vulto distante como sempre fora. Seu nome era Flávio, ou pelo menos eu acho, pois a minha memória falha quanto aos detalhes sem importância. E, como eu, estudava no Colégio Marista Nossa Senhora de Nazaré. Todas as semelhanças entre nós, entretanto, se esgotavam nas salas de aula a se ladearem e no horário da Educação Física, pois, diferente de mim, ele era descolado, e andava com passos folgados, e usava umas calças frouxas de malha, e tinha um cabelo grande e ruivo.  Diferente de mim, sobretudo, ele fazia dança.  Nos anos 90, não recordo de nenhum outro garoto enfrentar todos os meninos e escolher “dança” como atividade extra no colégio. Embora, de longe, nem parecesse enfrentar nada, ele simplesmente possuía coragem de ser quem era. Quando eu saía da natação, sempre passava em frente a sala de dança e, mesmo c

OS GAYS TAMBÉM TÊM DIREITO DE AMAR.

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Domingo passado, no semanal almoço de família, um primo me disse: “O problema dos gays é que eles são todos promíscuos”.  Respirei fundo – da forma como aprendemos a fazer para aguentar almoços familiares – e perguntei com quantas prostitutas ele já tinha transado. Ora, eu o conheço há muito tempo e cresci ouvindo suas histórias sobre as meninas que pegava ali, sobre as surubas que fazia dacolá. Na sua juventude, quando ligávamos o seu computador, nos deparávamos com um papel de parede de uma mulher pelada numa posição pouco convencional. Há muitos anos, ele me levou num show de sexo ao vivo num SexShop em Copacabana e, na mesma época, prometeu-me não sei quantos reais se eu transasse com a empregada da casa da minha mãe. Essa mesma pessoa, hoje um pai de família, vem me dizer que os gays são promíscuos. Bom, não falo por todos, mas  eu  nunca transei com garotos de programa, nem participei de surubas. Não sou santo... Graças a Deus! E nem quero recriminar as pessoas

EU NÃO ERA GAY, EU ERA UMA CRIANÇA

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Durante toda a minha infância sempre houve, por parte de minha família, uma enorme vontade de que eu tivesse amizade com outros garotos. Quando eu era muito pequeno, lembro-me de brincar tanto com meninos quanto com meninas, mas na medida em que o tempo foi passando e meu jeito  delicado foi ficando mais evidente, a amizade com garotos começou a rarear. Lá pelos 11 anos, no entanto, mudaram-se para o meu prédio dois novos garotos. Não lembro-me dos nomes, infelizmente. Recordo-me apenas de que um tinha a minha idade e outro era mais velho. Lá pelos 16. Era bonito e falava muito das namoradas que tinha.  Nos encontrávamos no salão de festas – no meu prédio não tinha  playground – e, um dia, o mais novo perguntou em qual colégio eu estudava e, logo depois, completou:  "É perto do meu colégio. Amanhã nós podemos te dar uma carona". Subi as escadas esbaforido, na felicidade gigantesca de finalmente dar a minha mãe o orgulho de eu ter um amigo menino.  No dia seguin

AQUELAS “PEQUENAS” HOMOFOBIAS DIÁRIAS

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Dia desses, uma amiga me convidou para ser padrinho do seu filho. Eu aceitei! Não sei bem explicar a razão, mas geralmente eu me dou bem com crianças. Gosto de conversar com elas, de ouvir suas histórias, de jogar videogame e andar de bicicleta. Infelizmente, desta vez, perdi o afilhado... Depois de nascido, a amiga me desconvidou. Ela achou melhor chamar aquele outro amigo hétero que também tem filhos... “ele se encaixa melhor no perfil. Além do mais, você não combina com estas coisas de família. Você faz a linha diferentão!” No dicionário dela, diferentão deve significar gay. Pela mesma época, fui impedido de ser padrinho de novo. Mas, agora, de um casamento civil na praia, “Você não tem uma madrinha com quem fazer par.” É interessante como algumas pessoas ainda pensam que homofobia é apenas espancar gays na rua. Pensam que comportamentos homofóbicos precisam sempre ser  extremos, se resumindo a dar soco, chute e quebrar uma lâmpada fluorescente na cara de rapazes que anda