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O SONHO: A VIA REGIA DA SAUDADE.

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  Tenho mantido a mania de anotar meus sonhos. Começou como um exercício teatral direcionado ao meu grupo e depois acabou virando rotina. Como um músculo que, quanto mais se exercita, mais se desenvolve, tenho sonhado — e lembrado — cada vez mais. E ontem sonhei com a Gisele. Fazia tempo que ela não me visitava em sonhos — porque, em pensamentos, é impossível não a ter sempre por perto. Todos os dias, mais de uma vez, passo de carro pela Avenida Duque de Caxias e tenho, num lapso, a sensação de que, como sucedia em outro tempo, ela estava me esperando em frente às Americanas. Como é típico dos sonhos, dezenas de significados, condensações e símbolos se materializaram à minha frente: saudade, raiva, culpa, medo, alegria. O seu sorriso, como na vida, ainda era imenso. Mas me deterei a um fato: eu a abracei. Abraços são coisas difíceis para mim. Aos 21 anos, já na minha segunda terapia, a dra. Suely me disse que eu mantinha um braço estendido à frente do corpo, sempre impedindo as pes...

O PRINCÍPIO DA ARTE

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  Sou ator, diretor de teatro e dramaturgo há quase vinte e cinco anos. Sempre ouço comentários sobre minha dedicação, sobre o quanto desejariam amar algo tanto quanto eu amo o teatro. E eu, diferente de muitos, amo o teatro não por causa do aplauso, mas pelo seu poder de salvar vidas. São incontáveis os exemplos que presenciei do teatro salvando pessoas ao longo desta jornada. Mesmo com essa paixão palpável, outro dia, num momento de disparate psicológico, quase uma brincadeira, postei uma foto no Instagram dizendo que abandonaria o teatro para me dedicar apenas à psicanálise, que comecei a estudar agora. Nossa, comoção total! Mas me surpreendeu o fato de as pessoas não estarem escrevendo coisas como “continue”, ou “é difícil, mas é importante lutarmos pelas artes cênicas”, ou ainda “você é importante para a arte paraense”. Não. O celular explodiu de likes e comentários — algo, aliás, que nunca acontece quando falo de uma peça — com pessoas me parabenizando pela “nova” e “co...

Apenas vá!

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Quando um amigo seu o convidar para ir vê-lo no teatro, faça um esforço e vá! Mesmo que não seja uma peça com Marco Nanini ou Fernanda Torres... mesmo que não seja um musical gigantesco de dez milhões de reais. Vá! Mesmo que desconfie de a peça não seja tão boa, talvez até pobrezinha. Faça um esforço e vá! Neste mundo em que temos Meryl Streep e Leonardo DiCaprio facilmente acessíveis no catálogo de um streaming, o teatro é um dos últimos lugares onde vivemos o real. É no teatro que um povo se enxerga, se reconhece e se reinventa. É um espaço no qual sentimos nosso semelhante, interagimos e não nos sentimos sozinhos. Pois há pessoas não apenas ao seu lado, mas à sua frente, sem a fria distância de uma tela de celular. O teatro está em todos os lugares. Nas menores cidades, pode não haver cinema ou bom sinal de internet, mas certamente existe um grupo de teatro, pois ele dá voz às nossas histórias, preserva a memória, provoca reflexão e desperta sentimentos que fortalecem nossa identida...

HIPÓTESE

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Nossa história amor ainda pulsa como “e se” Já existiu, já foi hipótese Mas vive, apesar da dor. Resta remoer o passado, Imaginar um outro agora Estando tu ao meu lado, no girar de cada hora. Se o filme da vida Tivesse atores maduros, A felicidade não perderia, E teríamos, nós, o futuro. Se o tempo fosse diverso, — Tivesse te encontrado depois  — O nosso amor, feliz verso. Seriamos demais: seriamos dois No mundo sem despedida, Sem magoas pelo não dito, Não restaria a carne ferida, só filho, gato  — infinito   . Talvez fora apenas sonho, União frágil, não destino Mas como saber, se me proponho A não esquecer o desatino? Do amor antigo, seguindo servo No eclipse, vivendo o "não", Mas com o coração sempre no alvo, dessa fria solidão. Saulo Sisnando 20.06.2025

TEATRO VERDADEIRO - Quando arte, eu vivo!

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Nos últimos tempos, eu tenho andado em busca de um “Teatro Verdadeiro”. Embora a verdade para um não seja a mesma para o outro. Nos tempos de inteligências artificiais, musicais enlatados e busca por uma estética “Broadway”, sinto o meu “teatro verdadeiro” voltar-se para o essencial, para o rústico, para o off-line. Cada vez mais, sinto-me em casa apenas quando estou em um teatro compromissado com a sua raiz experimental. O teatro atual abre mão de sua vocação guerrilheira e revolucionária, para se tornar um produto dentro de um mundo de plástico, no qual qual bom é se parecer com a Broadway. Ninguém se importa com o coração do espetáculo; o que interessa é assemelhar-se ao “original” da Disney. E então abandonamos nossas histórias, nossas lendas, nossa estética e, pior, nossas lutas urgentes e pulsantes — para, na conhecida síndrome de vira-lata, nos empenharmos para fazer peças tão “boas” quanto os americanos, os ingleses e os franceses. Embora eles estejam contando suas histórias. E...

SOBRE TRêS e o fim!

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“Enfim, ela descansou.” Foi assim que recebi a notícia da partida da tia Célia, justamente quando chegava para a última apresentação do espetáculo TRÊS. E não há como não pensar em fins… em encerramentos de ciclos. TRÊS, minha nova peça, é inspirada no espetáculo Violetango, de Miguel Santa Brígida — mestre no início da minha trajetória como ator e que, justamente nesta semana, me anunciou sua aposentadoria após décadas como professor da UFPA. Tia Célia chegou um pouco antes. Foi minha professora na 3ª e 4ª séries, no Colégio Nazaré. Ela morava em frente à minha casa, e todos os dias eu entrava no seu Fusca branco, e Íamos juntos para a escola. No carro, éramos amigos, quase mãe e filho. Na sala, ela era a professora, e eu, o aluno. Foi com tia Célia que aprendi os tempos verbais e decorei — até hoje sei de cor — todas as preposições da língua portuguesa. Em sua homenagem, escrevi, em 2019, a peça “O Príncipe Poeira e a Flor da Cor do Coração”. Apresentei no Rio de Janeiro e ganhei vár...

ENVELHECENDO A CÉU ABERTO

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Fiquei a fim de um rapaz mais novo, Nada de amor, queria só algo carnal. Ele disse: você era belo, quando moço; Que tal hoje fazer um lifting facial? Cortando e puxando, volta a brilhar, Não vai nem dar muito trabalho. Só cuidado para não ficar Com as sobrancelhas dos Barbalho. Você ainda tem algum viço, Posso facilmente notar, Mas tem muita pele sobre teu olho, Um cansaço… É só isso. Existe fimose ocular? Te acho interessante e até gato, Deve ser esse excesso de vida Que escorre da tua papada. Inteligente, ouve Liniker, lê Gabo, Mas tua idade é como ferida, Que contamina após breve encarada. Queria ter coragem de te beijar, Mesmo que por um minuto. Te admiro, porra!, tenho até tesão, Mas não posso te mostrar. Quem sabe, a sós e no escuro, Mas não aqui no Mangueirão. Fica só com o meu olhar, Que te enxerga com admiração. Mas outro tenho de beijar No show da Batidão. Você é bonito, Malha e pratica esporte. Saia de casa, velhice não é vergonha, Te desejo toda a sorte. Não comigo, Na próx...