O SONHO: A VIA REGIA DA SAUDADE.
Tenho mantido a mania de anotar meus
sonhos. Começou como um exercício teatral direcionado ao meu grupo e depois
acabou virando rotina. Como um músculo que, quanto mais se exercita, mais se
desenvolve, tenho sonhado — e lembrado — cada vez mais.
E ontem sonhei com a Gisele. Fazia tempo
que ela não me visitava em sonhos — porque, em pensamentos, é impossível não a
ter sempre por perto. Todos os dias, mais de uma vez, passo de carro pela
Avenida Duque de Caxias e tenho, num lapso, a sensação de que, como sucedia em
outro tempo, ela estava me esperando em frente às Americanas. Como é típico dos
sonhos, dezenas de significados, condensações e símbolos se materializaram à
minha frente: saudade, raiva, culpa, medo, alegria. O seu sorriso, como na
vida, ainda era imenso. Mas me deterei a um fato: eu a abracei.
Abraços são coisas difíceis para mim. Aos
21 anos, já na minha segunda terapia, a dra. Suely me disse que eu mantinha um
braço estendido à frente do corpo, sempre impedindo as pessoas de se
aproximarem. De fato, abraçar é muito difícil. Beijar, se pegar, transar é tudo
mais fácil… mas o abraço. O abraço é calmo e exige o máximo desapego das nossas
defesas. Talvez seja aquela sensação de medo quando os corações ficam frente a
frente, peito a peito, que me faça recuar. Talvez o medo de que a pessoa escorra
pelos meus braços, se desfaça em água, poeira, ouro em pó. Mas, como dizem os
posts dos psicanalistas de Instagram: onde há medo não há desejo?
Qual é, então, o meu medo? E, mais
importante, qual é o meu desejo?
Cresci ouvindo minha mãe contar que, no
início da segunda infância, eu fechava a mão esquerda e não a abria.
Interpretaram como convulsão. Levaram-me a neurologistas, psiquiatras e
psicólogos. Por fim, algum deles chegou à conclusão de que eu me sentia rejeitado
pelo meu pai — que trabalhava viajando — e eu apenas o queria de volta.
Devo ter aberto a mão, mas não o peito.
Será que temo abraços por medo de ser rejeitado, abandonado ou não amado? Não
sei. Mas, por enquanto, essa resposta reverbera e faz sentido.
O fato é que, sem grande dificuldade, eu
abracei a Gisele. Porque, afinal, não há como ser abandonado por alguém que já
não está mais aqui. E eu dizia: “Volta. Eu não consigo fazer teatro sem você.”
Ao que ela respondia: “Seu teatro faria muito sucesso aqui no meu novo
trabalho.” Seriam necessárias muitas páginas para entender por que igualei
“céu” a “trabalho”. Aqueles e aquelas atuantes no teatro, no entanto, entendem
a comparação. Mas é melhor parar por hoje.
Aos que a conheciam, deixo como alento a
imagem dela: linda, bem-vestida, feliz e com um cabelo maravilhoso — daqueles
de comercial de xampu.
Freud dizia que o sonho é a via régia do
inconsciente. Quem dera se os devaneios do nosso sono fossem apenas o caminho
da realidade.
Saudades.
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