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Mostrando postagens de 2026

Gato

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Vocês já viram um gato morto? Vi um cruzando o corredor, indo para o meu quarto. O quarto está vazio. A porta, fechada. Gatos sabem bater à porta. Toc. Toc. Toc.

VOCÊ NUNCA FOI TÍMIDO

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  Sempre me considerei muito tímido. Tímido a ponto de não conseguir falar ao telefone. Quando era mais jovem, era tão introvertido que não conseguia ligar para lugar nenhum em busca de informações. Eu subornava ou coagia alguém perto de mim a fazer isso no meu lugar. Graças a Deus, hoje quase não precisamos mais ligar, basta uma mensagem de texto. Na escola e na faculdade, eu sentava lá atrás, longe do olhar da professora, com um medo indizível de, por alguma razão, ser apontado e ter de falar diante de toda a turma. Com o tempo, tentando enfrentar essa vergonha que me travava, percebi algo. Eu nunca fui apenas tímido. Eu, na verdade, tinha vergonha da minha voz. São muitas as lembranças de pessoas rindo por causa da minha voz — feminina demais — e dos meus trejeitos ao falar. Foram incontáveis as vezes em que fui chamado atenção, muitas delas com humilhação, diante de desconhecidos, por alguém da minha própria família. Não revira os olhos. Fala direito. Lembro de uma ve...

O SONHO: A VIA REGIA DA SAUDADE.

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  Tenho mantido a mania de anotar meus sonhos. Começou como um exercício teatral direcionado ao meu grupo e depois acabou virando rotina. Como um músculo que, quanto mais se exercita, mais se desenvolve, tenho sonhado — e lembrado — cada vez mais. E ontem sonhei com a Gisele. Fazia tempo que ela não me visitava em sonhos — porque, em pensamentos, é impossível não a ter sempre por perto. Todos os dias, mais de uma vez, passo de carro pela Avenida Duque de Caxias e tenho, num lapso, a sensação de que, como sucedia em outro tempo, ela estava me esperando em frente às Americanas. Como é típico dos sonhos, dezenas de significados, condensações e símbolos se materializaram à minha frente: saudade, raiva, culpa, medo, alegria. O seu sorriso, como na vida, ainda era imenso. Mas me deterei a um fato: eu a abracei. Abraços são coisas difíceis para mim. Aos 21 anos, já na minha segunda terapia, a dra. Suely me disse que eu mantinha um braço estendido à frente do corpo, sempre impedindo as pes...

O PRINCÍPIO DA ARTE

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  Sou ator, diretor de teatro e dramaturgo há quase vinte e cinco anos. Sempre ouço comentários sobre minha dedicação, sobre o quanto desejariam amar algo tanto quanto eu amo o teatro. E eu, diferente de muitos, amo o teatro não por causa do aplauso, mas pelo seu poder de salvar vidas. São incontáveis os exemplos que presenciei do teatro salvando pessoas ao longo desta jornada. Mesmo com essa paixão palpável, outro dia, num momento de disparate psicológico, quase uma brincadeira, postei uma foto no Instagram dizendo que abandonaria o teatro para me dedicar apenas à psicanálise, que comecei a estudar agora. Nossa, comoção total! Mas me surpreendeu o fato de as pessoas não estarem escrevendo coisas como “continue”, ou “é difícil, mas é importante lutarmos pelas artes cênicas”, ou ainda “você é importante para a arte paraense”. Não. O celular explodiu de likes e comentários — algo, aliás, que nunca acontece quando falo de uma peça — com pessoas me parabenizando pela “nova” e “co...