VOCÊ NUNCA FOI TÍMIDO
Sempre me considerei muito tímido. Tímido a
ponto de não conseguir falar ao telefone. Quando era mais jovem, era tão
introvertido que não conseguia ligar para lugar nenhum em busca de informações.
Eu subornava ou coagia alguém perto de mim a fazer isso no meu lugar. Graças a
Deus, hoje quase não precisamos mais ligar, basta uma mensagem de texto.
Na escola e na faculdade, eu sentava lá
atrás, longe do olhar da professora, com um medo indizível de, por alguma
razão, ser apontado e ter de falar diante de toda a turma.
Com o tempo, tentando enfrentar essa
vergonha que me travava, percebi algo. Eu nunca fui apenas tímido. Eu, na
verdade, tinha vergonha da minha voz.
São muitas as lembranças de pessoas rindo
por causa da minha voz — feminina demais — e dos meus trejeitos ao falar. Foram
incontáveis as vezes em que fui chamado atenção, muitas delas com humilhação,
diante de desconhecidos, por alguém da minha própria família.
Não revira os olhos. Fala direito.
Lembro de uma vez em que ouvi de minha mãe: se
você revirar os olhos mais uma vez, eu quebro a sua cara.
Então, calei.
Era mais fácil entender-me como tímido do
que admitir que minha fala me colocava em um lugar de vergonha diante dos
outros. Desconfio até que uma das razões de eu ter me tornado escritor venha
daí, afinal, escrever é uma maneira de me expressar sem expor a voz tão
rejeitada.
Não, eu nunca fui tímido.
Eu era um menino castrado. Uma criança
proibida. Um ser dissidente impedido de se expressar em um mundo que insiste em
colocar todos em caixas pré-moldadas.
Escolhi a timidez como máscara para me
proteger.
Mas a voz não é apenas som. É um objeto do
desejo. Ela revela o que escapa do sujeito. E dói porque nunca é só nossa —
está atravessada pelo outro, pela linguagem, pelo olhar social. Pelo grande
Outro.
Ao me tornar escritor e diretor de teatro,
comecei a perceber que não fazia sentido continuar escondido. Não era justo com
aqueles que me veem, me leem, me amam. Não fazia sentido oferecer ao mundo uma
voz corrigida, domesticada, mentirosa.
Então, ainda com medo, mas sustentado pelas
pequenas certezas que fui construindo, comecei a mandar áudios no WhatsApp,
sentar na primeira carteira, fazer perguntas em sala.
Eu ainda não amo minha voz. Muitas vezes nem
escuto os áudios que envio. Mas envio mesmo assim. Porque é importante — para
mim e para quem me ama — saber que esse é o som emitido por esse ser
atravessado pelo desejo e pela falta.
Hoje entendo. Não se tratava de aprender a
falar. Se tratava de desmontar o ideal. Esse modelo que a gente tenta alcançar,
mas que não nasce na gente. Vem de fora. Uma régua que mede, julga, corrige —
mas que aprendemos a chamar de nossa.
Durante muito tempo achei que precisava de
coragem para falar. Mas o que eu precisava era abandonar a ideia de quem eu
deveria ser. Minha voz nunca esteve errada. Errado era o lugar de onde eu me
escutava.
Portanto, fale. Fale sempre.
...Fale com a sua própria voz.
Saulo
Alexandre Sisnando
18.3.26

Comentários
Postar um comentário