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Gato

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Vocês já viram um gato morto? Vi um cruzando o corredor, indo para o meu quarto. O quarto está vazio. A porta, fechada. Gatos sabem bater à porta. Toc. Toc. Toc.

VOCÊ NUNCA FOI TÍMIDO

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  Sempre me considerei muito tímido. Tímido a ponto de não conseguir falar ao telefone. Quando era mais jovem, era tão introvertido que não conseguia ligar para lugar nenhum em busca de informações. Eu subornava ou coagia alguém perto de mim a fazer isso no meu lugar. Graças a Deus, hoje quase não precisamos mais ligar, basta uma mensagem de texto. Na escola e na faculdade, eu sentava lá atrás, longe do olhar da professora, com um medo indizível de, por alguma razão, ser apontado e ter de falar diante de toda a turma. Com o tempo, tentando enfrentar essa vergonha que me travava, percebi algo. Eu nunca fui apenas tímido. Eu, na verdade, tinha vergonha da minha voz. São muitas as lembranças de pessoas rindo por causa da minha voz — feminina demais — e dos meus trejeitos ao falar. Foram incontáveis as vezes em que fui chamado atenção, muitas delas com humilhação, diante de desconhecidos, por alguém da minha própria família. Não revira os olhos. Fala direito. Lembro de uma ve...

O SONHO: A VIA REGIA DA SAUDADE.

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  Tenho mantido a mania de anotar meus sonhos. Começou como um exercício teatral direcionado ao meu grupo e depois acabou virando rotina. Como um músculo que, quanto mais se exercita, mais se desenvolve, tenho sonhado — e lembrado — cada vez mais. E ontem sonhei com a Gisele. Fazia tempo que ela não me visitava em sonhos — porque, em pensamentos, é impossível não a ter sempre por perto. Todos os dias, mais de uma vez, passo de carro pela Avenida Duque de Caxias e tenho, num lapso, a sensação de que, como sucedia em outro tempo, ela estava me esperando em frente às Americanas. Como é típico dos sonhos, dezenas de significados, condensações e símbolos se materializaram à minha frente: saudade, raiva, culpa, medo, alegria. O seu sorriso, como na vida, ainda era imenso. Mas me deterei a um fato: eu a abracei. Abraços são coisas difíceis para mim. Aos 21 anos, já na minha segunda terapia, a dra. Suely me disse que eu mantinha um braço estendido à frente do corpo, sempre impedindo as pes...

O PRINCÍPIO DA ARTE

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  Sou ator, diretor de teatro e dramaturgo há quase vinte e cinco anos. Sempre ouço comentários sobre minha dedicação, sobre o quanto desejariam amar algo tanto quanto eu amo o teatro. E eu, diferente de muitos, amo o teatro não por causa do aplauso, mas pelo seu poder de salvar vidas. São incontáveis os exemplos que presenciei do teatro salvando pessoas ao longo desta jornada. Mesmo com essa paixão palpável, outro dia, num momento de disparate psicológico, quase uma brincadeira, postei uma foto no Instagram dizendo que abandonaria o teatro para me dedicar apenas à psicanálise, que comecei a estudar agora. Nossa, comoção total! Mas me surpreendeu o fato de as pessoas não estarem escrevendo coisas como “continue”, ou “é difícil, mas é importante lutarmos pelas artes cênicas”, ou ainda “você é importante para a arte paraense”. Não. O celular explodiu de likes e comentários — algo, aliás, que nunca acontece quando falo de uma peça — com pessoas me parabenizando pela “nova” e “co...

Apenas vá!

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Quando um amigo seu o convidar para ir vê-lo no teatro, faça um esforço e vá! Mesmo que não seja uma peça com Marco Nanini ou Fernanda Torres... mesmo que não seja um musical gigantesco de dez milhões de reais. Vá! Mesmo que desconfie de a peça não seja tão boa, talvez até pobrezinha. Faça um esforço e vá! Neste mundo em que temos Meryl Streep e Leonardo DiCaprio facilmente acessíveis no catálogo de um streaming, o teatro é um dos últimos lugares onde vivemos o real. É no teatro que um povo se enxerga, se reconhece e se reinventa. É um espaço no qual sentimos nosso semelhante, interagimos e não nos sentimos sozinhos. Pois há pessoas não apenas ao seu lado, mas à sua frente, sem a fria distância de uma tela de celular. O teatro está em todos os lugares. Nas menores cidades, pode não haver cinema ou bom sinal de internet, mas certamente existe um grupo de teatro, pois ele dá voz às nossas histórias, preserva a memória, provoca reflexão e desperta sentimentos que fortalecem nossa identida...

HIPÓTESE

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Nossa história amor ainda pulsa como “e se” Já existiu, já foi hipótese Mas vive, apesar da dor. Resta remoer o passado, Imaginar um outro agora Estando tu ao meu lado, no girar de cada hora. Se o filme da vida Tivesse atores maduros, A felicidade não perderia, E teríamos, nós, o futuro. Se o tempo fosse diverso, — Tivesse te encontrado depois  — O nosso amor, feliz verso. Seriamos demais: seriamos dois No mundo sem despedida, Sem magoas pelo não dito, Não restaria a carne ferida, só filho, gato  — infinito   . Talvez fora apenas sonho, União frágil, não destino Mas como saber, se me proponho A não esquecer o desatino? Do amor antigo, seguindo servo No eclipse, vivendo o "não", Mas com o coração sempre no alvo, dessa fria solidão. Saulo Sisnando 20.06.2025

TEATRO VERDADEIRO - Quando arte, eu vivo!

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Nos últimos tempos, eu tenho andado em busca de um “Teatro Verdadeiro”. Embora a verdade para um não seja a mesma para o outro. Nos tempos de inteligências artificiais, musicais enlatados e busca por uma estética “Broadway”, sinto o meu “teatro verdadeiro” voltar-se para o essencial, para o rústico, para o off-line. Cada vez mais, sinto-me em casa apenas quando estou em um teatro compromissado com a sua raiz experimental. O teatro atual abre mão de sua vocação guerrilheira e revolucionária, para se tornar um produto dentro de um mundo de plástico, no qual qual bom é se parecer com a Broadway. Ninguém se importa com o coração do espetáculo; o que interessa é assemelhar-se ao “original” da Disney. E então abandonamos nossas histórias, nossas lendas, nossa estética e, pior, nossas lutas urgentes e pulsantes — para, na conhecida síndrome de vira-lata, nos empenharmos para fazer peças tão “boas” quanto os americanos, os ingleses e os franceses. Embora eles estejam contando suas histórias. E...

SOBRE TRêS e o fim!

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“Enfim, ela descansou.” Foi assim que recebi a notícia da partida da tia Célia, justamente quando chegava para a última apresentação do espetáculo TRÊS. E não há como não pensar em fins… em encerramentos de ciclos. TRÊS, minha nova peça, é inspirada no espetáculo Violetango, de Miguel Santa Brígida — mestre no início da minha trajetória como ator e que, justamente nesta semana, me anunciou sua aposentadoria após décadas como professor da UFPA. Tia Célia chegou um pouco antes. Foi minha professora na 3ª e 4ª séries, no Colégio Nazaré. Ela morava em frente à minha casa, e todos os dias eu entrava no seu Fusca branco, e Íamos juntos para a escola. No carro, éramos amigos, quase mãe e filho. Na sala, ela era a professora, e eu, o aluno. Foi com tia Célia que aprendi os tempos verbais e decorei — até hoje sei de cor — todas as preposições da língua portuguesa. Em sua homenagem, escrevi, em 2019, a peça “O Príncipe Poeira e a Flor da Cor do Coração”. Apresentei no Rio de Janeiro e ganhei vár...

ENVELHECENDO A CÉU ABERTO

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Fiquei a fim de um rapaz mais novo, Nada de amor, queria só algo carnal. Ele disse: você era belo, quando moço; Que tal hoje fazer um lifting facial? Cortando e puxando, volta a brilhar, Não vai nem dar muito trabalho. Só cuidado para não ficar Com as sobrancelhas dos Barbalho. Você ainda tem algum viço, Posso facilmente notar, Mas tem muita pele sobre teu olho, Um cansaço… É só isso. Existe fimose ocular? Te acho interessante e até gato, Deve ser esse excesso de vida Que escorre da tua papada. Inteligente, ouve Liniker, lê Gabo, Mas tua idade é como ferida, Que contamina após breve encarada. Queria ter coragem de te beijar, Mesmo que por um minuto. Te admiro, porra!, tenho até tesão, Mas não posso te mostrar. Quem sabe, a sós e no escuro, Mas não aqui no Mangueirão. Fica só com o meu olhar, Que te enxerga com admiração. Mas outro tenho de beijar No show da Batidão. Você é bonito, Malha e pratica esporte. Saia de casa, velhice não é vergonha, Te desejo toda a sorte. Não comigo, Na próx...

FINALMENTE, A MEDALHA ou A TEELA SEM CABEÇA

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  Apaixonei-me pela Ginástica Artística em 1988, quando, pela primeira vez na história, o Brasil levou uma atleta para as Olimpíadas: Luísa Parente. Eu tinha apenas 10 anos. Apesar de toda a empolgação de termos uma representante em Seul, os olhos estavam voltados para a disputa entre Yelena Shushunova, da União Soviética, e Daniela Silivaș, da Romênia. Meu pai, também entusiasta da ginástica, sentava-se na poltrona, e eu, no chão, e juntos assistíamos àquela rivalidade. Eu torcia para Shushunova, com seu solo impecável ao som de um tango, e ele para Silivaș, com sua entrada peculiar na trave de equilíbrio. Silivaș — e meu pai — eram elegantes, enxutos e longilíneos, enquanto Shushunova — como eu — era visceral, intensa e apaixonada. Nossa relação de pai e filho sempre foi marcada por essa diferença estética: ele sempre leu Erico Veríssimo, e eu, Clarice Lispector. Lembro que gravamos as competições daquele ano em uma fita VHS e, depois disso, passei a assistir repetidas vezes ...

PARA AQUELE RAPAZ DO ÔNIBUS.

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  Algumas pessoas se apaixonaram pelo primo mais velho. Outras, pelo professor de artes. Muitos, desenvolveram paixonites sofridas pelo amigo hétero, e amargaram em segredo a obrigação de manterem os sentimentos aprisionados. Vibrando e suspirando veladamente, cada toque de joelhos – enquanto estudavam para a prova de matemática – a cada cheiro, que permanecia após o abraço de despedida. Eu, por outro lado, sempre ultrarromântico, era do tipo de me apaixonar perdidamente no ônibus. Lembro-me, como se fosse hoje, a primeira vez na qual me apaixonei por um rapaz no ônibus. Era início dos anos 90, eu devia ter uns 15 anos, e era fim de tarde, com   céu daquela cor romântica a pintar sempre as histórias de amor passadas. Peguei o coletivo em frente ao colégio Marista e sentei na primeira poltrona, logo após a catraca. Pela idade, decerto, eu estava pensando no meu novo livro jamais escrito nos moldes de Sidney Sheldon. E entre pensamentos sobre autógrafos e bestsellers, meus...

Coração Bravio

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Para Dimas Por seres um homem de coração bravio, tua alma precisa das carícias do vento, da pequena cidade, do peixe pescado no rio, do olhar dessa gente animada, mesmo em desalento. Porque és um homem criado no mato, usas esses chapéus de cowboy e botas de vaqueiro, e comes sempre em pé e falas alto como se trouxesses na voz a alegria do mundo inteiro. Como és um menino tão simples e ingênuo dizes 'eu te amo' em silêncio, sem retorno, numa tentativa de quebrar um pai distante capaz de amar apenas em silêncio sereno Meu irmão, Tu tens o sangue peão correndo nas veias e montas teus cavalos rumo ao azul tão puro onde não és pai ou filho, rico ou pobre, noite ou dia, és apenas um menino que não pensa no futuro. E o 'eu te amo' nunca respondido, é ouvido na brisa que balança a crina teu cavalo em fuga pois o amor de um pai, está nos botões da camisa nos ensinamentos e canções que deixou na tua vida. O amor de teu pai,  irmão,  vive nos botões de tua camisa. Saulo Sisnando 2...

POEMA DA ATRIZ

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 Para Sylvia Bandeira Aniversário de uma grande atriz é data sem razão, Como medir uma vida se tantas existências a fazem? Se o corpo é apenas vagão de um longo trem em viagem onde almas provisórias sobem e descem a cada fria estação As gares se vão, o vento muda, mas seu tempo não escoa, Pois sua irresistível beleza vem da sabedoria da personagem, Que partiu, na névoa, deixando fragmentos de ficta pessoa Como armas para enfrentar a vida de forma mais bela e selvagem Esse dia, é tua coração de rainha hora de grande aclamação, Quando, após derradeira linha, volta para o último aplauso, Ciente da força estimulante de sua magistral interpretação Criando um desconhecido universo Feroz e gentil, de onde é impossível sair sem aberta e pulsante cicatriz A marca profunda e em brasa do seu visceral talento de atriz. Saulo Sisnando 15 de fevereiro de 2023.

AMOR NEGADO

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  Quisera eu ter um avião Para que, onde tu habitas, o firmamento Pudesses professar as alegrias do teu coração Pedindo teu amor, teu homem, em casamento.   Quisera eu ter um país só meu, Erguido não por cima normas frias, Mas sobre as leis do amor, da empatia, Para que pudesses viver, não regalias!, Mas a igualdade do ser eu.   Logo a ti, menino viajante, Tu que tens as asas de Ícaro, Foi negado o direito derramar na altura do sol nascente, Teu amor, teu desejo, tua paixão ardente, Tua fidelidade de cisne, comprometida com teu par Como um pássaro a percorrer, infinitamente, Toda a distância do mar.   Mas calma, menino amante, Pois, diverso de Ícaro, Não despencaras sobre o Egeu, mar gigante, Morto, combalido, em brasa ardente Pois, nas tuas asas de pássaro, Existe a força de um povo, uma nação, Que ouve o teu lamento triste Como um convite para a luta, uma intenção, um brado ensurdecedor e vibrante, Para que o ...

Lagoa Seca

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  De todas as minhas lembranças, esta a mais bela. Uma velha ouvindo rádio, uma solidão, um penico... O último quarto de uma casa amarela.   O cheiro da grama molhada de manhã, Os gafanhotos insensatos, voando e fazendo barulho; O jardim cheio de rosas. Os pés de romã.   O vira-lata mancando, com nome de vitória O pé de seriguelas de doces frutos a cair no chão; A lenda do cachorro fantasma na noite de lua cheia.   Os bancos com pés em formas de cavalos, Onde conversamos sobre sonhos jamais realizados; Os vaga-lumes piscando em breves estalos.   Nenhum céu, de nenhum lugar, tem mais estrela, Que o céu da Lagoa Seca, do sertão do Ceará, A mais bela e irretocável celeste aquarela Que Deus foi capaz de pintar.   Mas hoje tudo é cimento, cinza, altos prédios. Da casa amarela, nem o penico resta no lugar O perto, ficou longe. Abraços quentes... agora, frios Mas a memória continua e invade... violenta... como o mar....

Receita de Sobrevivência em Redes Sociais

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 Se você usa Redes Sociais, precisa ter precaução Senão cai no abismo sem fundo, chamado comparação. Há gente que tem lancha, fama e maior peitão, Parece tão fácil soltar ‘pum’ e ganhar atenção. A foto pode ter mil likes, ser uma perfeição,  E, no fundo, ser tudo plástico: faltando amor, dor, riso, coração. Se o outro conseguiu hype... Parabéns! Apenas deseje luz,  Mas, cá entre nós, o que se esconde sob aquele capuz? Você não sabe o preço pago para sentar no cobiçado trono Por isso... desliga esse Instagram um minuto, sai desse inverno Esquece o agora. Conecte-se com o eterno Abra a sua janela e deixe entrar a luz do dia Leia um livro, uma HQ. Até novela tem mais valia! Já devia estar rico? Magro? Morar em São Paulo? Usar terno? Pelo amor de Deus, não embarca nessa desgraça de comparação Que nos impõe o TikTok, o Instagram; esse tal “mundo moderno”  Pra que tudo tão certo? Cada um tem sua cruz e sua expiação! Pega um lápis! Sem pressa... Vai sem afobação!  “Eu ...
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Não lute outra luta, uma hora dá certo É só manter a fé e ficar esperto, O pior já passou, já virou retrato Agora, vai ser de boa... um barato! Vai na maciota; rapaz, vai na manha! Tudo é exatamente como tem de ser Cada um tem sua própria montanha É o que viemos aqui aprender Então: olha em volta e respira fundo.  Liga o seu sentido aranha, E descobre sua missão nesse mundo! Vai por mim, não lute outra batalha, Nem se desvie da rota um pouquinho e será feliz como um passarinho. Saulo Sisnando        09.01.23        

Senhora de tudo

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  Para alguns tens a expressão de um ídolo, Para crianças, o focinho do animal, Para amantes, a face de quem sucumbiu ao câncer, Para mães, o filho que levou um tiro, Para mim, tens as rugas de meu pai.   Oh, Senhora de tudo, Neste finito mundo em três dimensões, Não conseguimos entender tua beleza, Pois se eu te perguntasse do teu próprio rosto, Dirias de cores que não existem De sabores utópicos e cheiros impossíveis, Mas, nas alegorias, como mais te aparentas, Serias a peça de teatro depois do fim, O ingresso do cinema serenando na carteira, A fotografia analógica que tremeu, O ônibus lotado no meio da viagem, O vinil girando no fim de um dos lados.   Tu és o escuro, o claro. O verde e o azul. O forte e o baixo. Tudo ao mesmo tempo. Sem tempo algum. O começo do fim e o fim do começo. Por isso, quando a hora certa chegar, E os astros no céu fizerem um perfeito círculo, Não temas a Senhora de tudo, Pois ela é exatamente...

POEMA DE ANO-NOVO

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  Hoje é o dia para sentirmos falta Daqueles que já se foram e Daqueles que nós já fomos. É a hora exata de descobrirmos que a felicidade não floresce em castelos, Mas em cabanas discretas, Pois o amor é um rio subterrâneo que brota, em nascentes modestas, nos quintais das casas mais humildes. Porque amor é simplicidade! Hoje é dia para mentirmos Dizermos que não viveremos mais o passado Para mergulharmos na estrada em frente de faróis acesos. Velozes. Hoje é dia para termos esperança, Dia de darmos nome a uma estrela E imaginarmos nossos mortos em uma nave, Voando numa velocidade inimaginável Levando para outros povos memórias que foram apenas nossas para que esses novos seres – frios marcianos! – entendam o sentimento humano da paixão. Que a coragem de viver nos invada num brilho dourado Que os abraços ainda sejam sentidos à noite Que a viagem continue rumo ao infinito E que nesse sem-fim estejamos todos –   vivos e mortos,...