domingo, 27 de junho de 2010

Miau #2


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Chefe: não foi isso que eu mandei você fazer. Será Possível? Eu disse para você falar sobre trans-fe-rên-cia. Não era para tocar no assunto do-cu-men-ta-ção. Vamos... Refaça!
Empregado: Senhor, por favor, leia até o fim.
Chefe lê. Pára. Devolve o papel ao empregado.
Chefe: Está ótimo! Pode sair!
Empregado: Quer que eu corrija alguma coisa?
Explosão.
Chefe: Não! Está ótimo! Já disse... Será possível que você nunca faz o que eu mando!?
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Saulo Sisnando definitivamente escrevendo como Saulo Sisnando

miau #1


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Ele 1 liga a webcam.
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Ele 1: odeio essas lâmpadas fluorescentes. Elas me deixam feio.
Ele 2: é mesmo. Você parece um E.T.
Ele 1: nossa! Difícil engolir esse seu comentário.
Ele 2: bebe água, filho. Estou certo de que você já engoliu coisa pior.
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Saulo Sisnando definitivamente escrevendo como Saulo Sisnando

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Carta ao Matador


Querido Waldisney,
Tudo bem? Por aqui as coisas estão ótimas...
Claro que não estou me referindo a sua esposa, pois, desde que você foi preso, ela se prostrou numa cama e não levanta para nada. Mas seus filhos estão muito bem. O Marcates Ney e o Leno estão tomando conta do açougue. Os negócios vão de vento em popa. O Neco, por outro lado, ficou de recuperação em quase todas as disciplinas, mas tirou 10 no projeto da feira de ciências. Ele dissecou um cachorro e explicou minuciosamente o sistema urinário dos mamíferos. Sentimos saudade do Baleia, nosso estimado Pastor Alemão, mas tudo em prol da educação das crianças.
A louca Ritinha não deu mais noticias. Desapareceu! Mas um ti-ti-ti ronda a casa de cômodos. Dizem que foi vista na garupa de uma motoca, com roupa de plástico e Ray-Ban na cara, assaltando caminhoneiros. Mamãe acha que é fofoca, mas eu acho bastante provável.
Por falar em Mamãe, ela está muito bem. Desde que teve aquele AVC (um sufoco para todos nós!) os clientes aumentaram. Ela ainda tem muita dificuldade para abrir as pernas, mas a sua boca ganhou uma maciez que esta encantando a freguesia.
Quanto a mim, estou fabulosa. Estou gradativamente me livrando dos entorpecentes. Não cedo mais à cocaína, nem aplico nada. Mas nos dias ímpares, para evitar aquela terrível convulsão, cheiro gás de geladeira.
Saudades, querido irmão. Ainda acreditamos na sua inocência. Mas se você realmente tiver matado a Lisandra. Tudo bem!, ela não era mesmo boa bisca.
Aguardo sua resposta,
Dionne.


Saulo Sisnando
escrevendo como Saulo Sisnando

domingo, 20 de junho de 2010

O cu






Oh, grande e maravilhoso cu,
Você parece tão frágil, mas é forte como exu
Não teme nada, nem mesmo vara de bambu
E só se deixa ver quando está inteiramente nu


Oh, sábio bicho cor de urubu,
Quem é inteligente adora meter no cu
Quem não é: mete acento agudo no u!


Cu doce eu não agüento
Prefiro daqueles que agüentam até jumento


Nem Mario de Andrade, nem Oswald, nem Pagu
É antropofagia mesmo, chuchu
Só pelo simples prazer de tomar no cu


Oh, meu enrugado cu,
Sei que adora de dar de ladinho
Devargarinho
Com pau durinho.
Nunca pra pau fininho,
Nem tortinho
Nem pequininho
Sei... e como sei... que gosta de cacetão,
Te Arrombando tanto, oh cuzão
Ate que nem consigo sentar direito no banco do buzão
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Saulo Sisnando
com participação de Carlos Vera Cruz, Ives Nelson e Kiara Guedes

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Um matador no 17º andar


Ramón sentiu o coração bater apressado, quando abriu a velha arca. Abraçados pela espessa camada de madeira, estavam os mais invejáveis tesouros: seu machado, sua corda, seu facão. Teve os olhos quase banhados por lágrimas, ao ser catapultado às lembranças memoráveis de sua vida de psicopata. A mulher grávida partida em dois pedaços pelo machado. O seu primo, enforcado e posteriormente pendurado pelos testículos. Sua mãe, desossada pelo facão. Agora, feliz, colocava em sua intimidade mais um objeto: o candelabro, com o qual, minutos atrás, quebrara a cara de sua vizinha. Entretanto antes de poder deliciar-se com aquela sensação, que surgia somente após matar alguém, ele ouviu uma sirene na rua. Estridente, chata, redonda: a polícia! Decerto, já tinha sido acionada e, sem escapatória, ele seria preso. Ramón estava a par do seu trágico destino. Na realidade até o tinha escolhido. Ele podia tê-la envenenado num feriado cristão ou esfaqueado-a numa noite tranqüila. Mas não! Simplesmente partiu a cara da velha, às três da tarde, na frente do marido caduco e dos netos: quatro horrendas crianças de cabelo vermelho. Sim! Agora restava apenas esperar... Esperar os policiais chegarem ao seu andar – 17º e o elevador estava quebrado... Esperar que tocassem a campainha, pedissem para entrar e exigissem que a arca fosse revelada. A arca... A arca... Precisava livrar-se dela. Ramón pensou em jogá-la pela janela, mas desistiu. Seu José – o porteiro detestável – estava de férias, e esta arca, cheia de tesouros, só merecia espatifar-se no chão, se fosse na cabeça daquele odioso homem. Decidiu apenas arrastá-la para longe dos olhos dos policiais. Mas antes que começasse tal ação, um feixe de luz cruzou a janela e fez brilhar algo no cantinho da caixa. Ramón estendeu as mãos e tocou o brilhante mistério: um límpido e virgem alicate de unha. Mundial. Como num reflexo, Ramón olhou para suas próprias unhas. Estavam O.K.! Mas seus dedos não estavam nada bem. Fechou a arca, sentou-se e neste rápido intervalo, em que aguardava a chegada dos policiais, decidiu cortar os próprios dedos. Estavam feios. Sujos. Amarelos. Começou pelos dedos dos pés. Claro, claro, eram mais curtos. Meteu a lâmina no dedo mindinho e segurando firme, para o alicate não escapulir, cortou-o fora. Miraculosamente, não sentiu nada! A excitação, que aquele ato trazia, o adormecia como um leproso. Cortou os demais dedos dos pés e, finalmente, viu-se diante do polegar. Gordo! Sangrento! Ossudo! Este teria de ser cortado aos poucos, curtindo o momento. Mordiscou a ponta do dedo. A sensação era boa, como se estivesse sendo lambido pela áspera língua de um felino! E prosseguiu, mordida a mordida, até o osso tornar-se aparente. Quando a lâmina triscou o osso daquele dedo, um choque cruzou-lhe a espinha. Uma dor gostosa... Finalmente estava curado da lepra momentânea! Apertou o osso com força e começou a puxá-lo para fora da carne. Em segundos, numa habilidade que somente os psicopatas dominam, os ossos de seu pé tinham sido expostos. Puxando afora o osso do polegar, ele descascou (como se faz com uma banana) o pé inteiro. E continuou descascando as pernas, a barriga, os braços. Percebeu, ensimesmado, que debaixo de si havia outro eu. E já com o corpo totalmente descascado, arrancou e virou do avesso a pele do rosto. Quando extraiu da cabeça o último tufo de cabelo, pegou um espelho, que descansava na mesinha de centro, e admirou-se. Lindo! Elegante! Feminino! Com enormes cílios negros a maçãs do rosto salientes. Fria e indiferente, a campainha soou, resgatando-o do ególatra transe e, Ramón, regurgitado e renovado, foi atender a porta. “Pois não?”, ele disse, com lábios vermelhos, mas voz inalterada, “em que posso ajudá-lo?”. O policial ficou em choque ao vê-lo e imediatamente abaixou a vista para disfarçar o espanto. Mas Ramón notou (quem não notaria?) o enorme pau do guardinha enrijecendo-se sob o uniforme apertado. “Hummmm, travesti”, teria dito o nervoso visitante, se Ramón não tivesse enfiado o alicate, no olho do guarda, espatifando o Ray-ban falsificado, que trazia pendurado sobre o nariz.