segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

PARA UM MENINO QUE DANÇA




Parafraseando o texto de Vinícius de Moraes.

Porque és um menino que dança, eu te prometo o meu amor. Pois danças tão lindamente e mexes mais um lado de que o outro. E te amo porque sinto que quando tu bailas não te dissolves em moléculas... Já que teus movimentos em nada repelem a essência, mas unes sensações e sentimentos, edificando a nossa volta uma muralha que nos protege da mais violenta onda do mar.

E tua dança parece ser feita da mesma eletricidade que corre no meu sistema nervoso... Porque teus movimentos não são calma ou quietude, mas são meu frêmito... Minha paixão! Tua dança é a eletricidade que nos conecta e nos enlaça num só corpo etéreo. E cada vez que bates teu tênis colorido no chão, meu peito treme e eu sinto como se (nesse segundo) tu restituísse ao universo a quantia cósmica que roubamos de Deus no ato da criação.

E porque és um menino que dança, tens essa mania de ser tão sentimental, chorando por motivos desconhecidos, e voltando para casa a fim de dar um ultimo abraço na mãe. Tragédia? Frescura? Excesso de sentimentalismo? Não! Fazes estas coisas encantadoras pelo simples fato de seres um menino que dança, e teres uns dentinhos tortos e salientes que deixam teu sorriso encantador. E são dentes tão incrivelmente alvos que se destacam do teu rosto de barba sempre mal feita e de óculos de lentes transitions que sempre arrebentam as alças e me impedem de ver teus olhos brilhando no sol.

Porque és o menino que dança, nos demos apelidos estranhos e me ensinaste a dançar. E dançaste tão junto de mim que sinto como se nunca mais estivesse sozinho... E viajo para outros continentes... E vou pra Londres... E, neste meu amor, lembro de ti ao ver Billy Elliot. Pois tenho certeza de que terias feito melhor... Simplesmente porque te enxergo com olhos míopes apaixonados que expelem lágrimas pelo teu simples movimento de braços.

E porque és um menino que dança, tens muitos fãs. E dormes em muitas casas me matando silenciosamente de ciúmes. Porque eu amo este menino que dança, mesmo que, na nossa timidez, nunca falemos nada. Afinal sempre nos comunicamos melhor por SMS, quando podemos diariamente dizer vários “eu te amo” sem um ver o olhar constrangido do outro.

E por seres este menino que dança, vieste do Tapanã até aqui só para me dar um abraço antes de tua viagem para Fortaleza... E perdeste a carona quando acreditaste que eu estava ainda em casa, antes de minha viagem para Paris. E não pudeste mesmo me dar um último abraço... Mas pelo telefone, com tua voz miúda, foste tão gentil que senti teus braços cortando dimensões e me envolvendo levemente mesmo estando quilômetros afastados um do outro.

E porque és o menino que dança, eu te amo, pois sempre entras suado no meu carro – após o ensaio – deixando o teu cheiro no ar por algumas horas após a despedida, e porque sempre vais comigo tomar suco no Batistão e ficamos dando “tchau” para desconhecidos que passam na frente do carro. E eu sempre vou te amar, mesmo sabendo que um dia me deixarás... Porque teu sonho é perambular pelo mundo... Nessa tua alma cigana ou mambembe... Mas eu te deixo partir, afinal não é justo que eu monopolize a visão de tua aura mudando de cor a cada giro que tu dás num palco.

E porque és um menino que dança e nunca recebeu flores de um grande amor... Que te prometo um beijo e espero que sintas em mim o perfume das flores que tu nunca recebeste. Porque, pelo meu amor por ti, eu te levaria para morar numa casa com um enorme jardim, cheio das mais diversas flores, só para que diariamente pudesse colher a mais bela flor para te dar. Independente da estação do ano. Afinal eu te amaria na neve ou no sol escaldante.

Isso tudo só porque tu és um menino que dança... E somente porque os pássaros comeram as migalhas de pão e eu esqueci caminho de volta... E apenas porque não sei mais viver sem te ver dançar.


Saulo Sisnando
08.01.2012