domingo, 31 de maio de 2015

EU TE AMO EM NORUEGUÊS


Tenho uma reivindicação: precisamos de uma nova palavra para substituir “amor”. AMOR. Quatro letras: duas vogais perfeitamente cruzadas por duas consoantes. Não! Não! Não! Não sei quando a vocês, mas eu não consigo amar em apenas quatro letras. É impossível, o amor nem é tão curto, nem tão simples assim. Por isso, a partir de hoje, eu só vou amar em norueguês: Kjærlighet. Sim! Desculpem-me os nacionalistas, mas parece que só mesmo os noruegueses sabem o quanto é complicado amar.
Para a literatura, o amor é um fogo... Não um fogo qualquer, mas de um tipo que arde sem se ver. Para o cinema, ele é mais simples, é apenas “nunca ter de pedir perdão”. Para a vida real, nossa... Ele é puramente indefinível.
Dizem que ele é único, ímpar, que só acontece uma vez e é para sempre. Mas o que seria dos divorciados se o “para sempre” fosse duradouro? O amor pode até ser eterno, todavia, sem dúvida, ele é malandro, bandoleiro e muito bandido. Há homens que amam somente a esposa... Mas há aqueles (e são tantos!) que amam a mulher, a amante, a puta e a sobrinha. Mas tudo bem, porque como o amor é secreto, a própria mulher pode amar outro homem ou, quem sabe, até outra mulher. Pois o amor é sexual... Independente do prefixo que se queira: heterossexual, bissexual ou homossexual.
Nem todo amor, no entanto, é sobre sexo. Existe amor casto, divino, puro, santificado, platônico. Há amor fraterno, paterno e materno. Há mães que amam com zelo e rigidez, “anda direito, fala direito, come direito”, e há aquelas, como a minha, que amam como Pilatos, lavando as mãos, “minha filha, na altura do campeonato, eu te aceito do jeito que você for”.
O amor pode ser próprio, adolescente, maduro, na terceira idade e até podemos amar quem já morreu. Pode ser monogâmico, bígamo e múltiplo e em progressão geométrica... Posto que até em suruba pode haver amor.
Para uns, o amor é possessivo: “você é meu e ponto final”. Para outros, é desprendido: “eu te amo independente do que você sente por mim”. O amor pode ser recíproco, quando se tem sorte; pode ser proibido (que delícia!), quando se tem mais sorte ainda! Entretanto pode ser solitário...
Pode ser discreto ou escandaloso. Efêmero ou duradouro. Pode ser cauteloso, perigoso ou irresponsável. Pode ser em letras garrafais, gritado, chorado, lamuriado ou calado... Escondido em letras miúdas de um pequeno diário.
O amor pode ser à primeira vista, surgindo belo e romântico no primeiro dia. Mas, ora!, ele pode surgir no segundo dia também... Ou no terceiro dia... Ou, se você tiver sorte no amor, ele vai é ressurgir todo dia e o dia todo.
O amor é dado. É de graça e não paga imposto (pelo menos, não ainda).
Ele é suor, ele é gemido, ele é corpo nu, ele é um líquido que sai como um escorregão. Afinal, ele é carnal. E ele é diplomático, posto que convive muito bem com todos os demais sentimentos, inclusive o ódio.
Ocorre entre seres humanos. Embora não seja exclusividade! Posto que também amamos bichos, e plantas, e objetos. Amor é o que eu sinto agora, escrevendo. Porque tem gente que ama escrever e, graças a Deus, há outro grupo de loucos que ama ler.
Amor é o que eu sinto quando brigo com minha mãe, porque ela ‘ainda’ se mete na minha vida. É o que sinto pelo meu pai, apesar de ele nunca acertar mexer no controle remoto da SKY. É o que eu sinto pelo meu melhor amigo, quando ele me pega em casa e me leva ao cinema. Amor são as borboletas no meu estômago, quando eu encontro “aquele” belo rapaz, à noite, e jogo olhares para ele... É o que eu sinto pelos meus irmãos, colegas de trabalho e de classe, é o que sinto pela minha professora e pela minha chefa. É o que eu sinto pelo teatro, pelos artistas, pelos meus escritores preferidos.
Amor é o que eu sinto por todos eles. E, sobretudo, amor é o que espero, do fundo do coração, que eles sintam de volta por mim.


Saulo Sisnando