segunda-feira, 20 de julho de 2015




Dói essa sensação de impotência diante do mundo. A certeza de que não há palavras, ações, promessas ou deuses capazes de mudar a curso das coisas.
E percebo não fazer mais nada do meu tempo, senão tentar mudar o que é... E o que é para ser.
A distância sempre será medida em quilômetros...
O tempo contado em minutos...
E a saudade, em amor.

(E as três medidas nunca diminuem.)

Saulo Sisnando

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SOBRE AMAR EM SEGREDO



Para alguém sem nome.

Então você decidiu que nunca mais se apaixonaria, que guardou mesmo a viola no saco e percebeu que esse lance de amar não era para você... Pois o destino parece realmente te querer sozinho.
Se levarmos em consideração a matemática – que é uma ciência e-xa-ta –, se apaixonar tem tudo para dar errado!
Ora, com esses bilhões de pessoas, que transitam pelo planeta Terra, encontrar a sua alma gêmea... Aquela que te completa... A metade da laranja... OYin do seu Yang... Parece mesmo ser uma tarefa bem impossível.
Porém...
Também não seria improvável que, com tantas almas andando por aí, você nunca mais encontrasse alguém com um sorriso tão lindo?
É... Contrariando a matemática, esse momento chega! E num belo dia, numa quinta-feira qualquer, no início da tarde, quando você mudou os planos, faltou ao inglês e decidiu ir (sei lá) para a academia, você encontrou alguém que é exatamente como você sempre sonhou.
Não que seja lindo... Embora seja! Mas é uma beleza não unanime; é uma lindeza dentro da imperfeição. E você percebe que, além do sorriso vasto de dentes miúdos, ele ainda se mexe de um jeito estranho... Uma forma que te invade o coração e te domina por dentro. Um andar que parece ter mais do que passos, pois vem recheado de cheiros e de gostos.
Eu realmente acho que eu me apaixono pela forma como as pessoas andam... Pela maneira como elas se movem.
E, desse dia em diante, sua rotina mudou. Você aposentou o inglês... Pois afinal, para que outra língua se você não tem para quem dizer I Love You? E suas tardes viraram uma sucessão de pequenas tentativas de encontro.
Quando você aperta o passo para pegarem o mesmo elevador e, lá dentro, você – tímido em grau mil – congela e suas mãos desesperadas apertam o celular , querendo puxar assunto e ao mesmo tempo sonhando com a possibilidade alguém te mandar um whatsapp, só para que você possa ter para onde olhar e o que fazer com as mãos. E quando a porta abre, você, vendo que perdeu a grande chance, solta um alto e desajeitado: “a cidade tá quente, né?” E ele te olha de volta, como se você fosse um louco varrido, e responde: “pois é! Um forno”. E então ele desaparece pelos corredores.
Amar em segredo é mesmo uma delícia. É seguir ele até o carro, para que, no dia seguinte, você escreva um poeminha bem cafona e coloque no parabrisas, com a assinatura: “admirador secreto”. Amar em segredo é querer, no dia dos namorados, mandar anonimamente flores... É querer oferecer carona... É descobrir seus autores preferidos, só para que possam ler os mesmos livros.
Amar em segredo é querer perder uns quilinhos... É rir de piadas sem graça... É cortar o cabelo para parecer mais jovem e descolado. É tentar descobrir significados ocultos nas frases mais simples. Amar em segredo é sonhar que um dia você e ele possam ir juntos a San Francisco e, ao passarem pela Golden Gate, você possa comentar: “sempre quis trazer a pessoa que eu amo aqui”.
Amar em segredo é escrever um texto, só para que – entre tantos amigos – ele curta a publicação. Amar, como estou amando, é desejar da forma mais profunda, que ele receba todo essa paixão (por que é apenas uma paixão) e entenda cada letra... E, ao mesmo tempo, que ele – nalgum milagre inexplicável ou deficiência cognitiva – jamais perceba que tudo foi escrito para ele. Pois o desejo de qualquer escritor é que seu texto chegue ao seu verdadeiro destinatário.
Pois esse é um jeito de dizer, com todas as letras, “eu estou apaixonado por você”... e mesmo assim, estar protegido entre letras Times New Roman e por uma tela de computador.


Saulo Sisnando
Quinta, 11 de junho de 2015.



21h08min

domingo, 31 de maio de 2015

EU TE AMO EM NORUEGUÊS


Tenho uma reivindicação: precisamos de uma nova palavra para substituir “amor”. AMOR. Quatro letras: duas vogais perfeitamente cruzadas por duas consoantes. Não! Não! Não! Não sei quando a vocês, mas eu não consigo amar em apenas quatro letras. É impossível, o amor nem é tão curto, nem tão simples assim. Por isso, a partir de hoje, eu só vou amar em norueguês: Kjærlighet. Sim! Desculpem-me os nacionalistas, mas parece que só mesmo os noruegueses sabem o quanto é complicado amar.
Para a literatura, o amor é um fogo... Não um fogo qualquer, mas de um tipo que arde sem se ver. Para o cinema, ele é mais simples, é apenas “nunca ter de pedir perdão”. Para a vida real, nossa... Ele é puramente indefinível.
Dizem que ele é único, ímpar, que só acontece uma vez e é para sempre. Mas o que seria dos divorciados se o “para sempre” fosse duradouro? O amor pode até ser eterno, todavia, sem dúvida, ele é malandro, bandoleiro e muito bandido. Há homens que amam somente a esposa... Mas há aqueles (e são tantos!) que amam a mulher, a amante, a puta e a sobrinha. Mas tudo bem, porque como o amor é secreto, a própria mulher pode amar outro homem ou, quem sabe, até outra mulher. Pois o amor é sexual... Independente do prefixo que se queira: heterossexual, bissexual ou homossexual.
Nem todo amor, no entanto, é sobre sexo. Existe amor casto, divino, puro, santificado, platônico. Há amor fraterno, paterno e materno. Há mães que amam com zelo e rigidez, “anda direito, fala direito, come direito”, e há aquelas, como a minha, que amam como Pilatos, lavando as mãos, “minha filha, na altura do campeonato, eu te aceito do jeito que você for”.
O amor pode ser próprio, adolescente, maduro, na terceira idade e até podemos amar quem já morreu. Pode ser monogâmico, bígamo e múltiplo e em progressão geométrica... Posto que até em suruba pode haver amor.
Para uns, o amor é possessivo: “você é meu e ponto final”. Para outros, é desprendido: “eu te amo independente do que você sente por mim”. O amor pode ser recíproco, quando se tem sorte; pode ser proibido (que delícia!), quando se tem mais sorte ainda! Entretanto pode ser solitário...
Pode ser discreto ou escandaloso. Efêmero ou duradouro. Pode ser cauteloso, perigoso ou irresponsável. Pode ser em letras garrafais, gritado, chorado, lamuriado ou calado... Escondido em letras miúdas de um pequeno diário.
O amor pode ser à primeira vista, surgindo belo e romântico no primeiro dia. Mas, ora!, ele pode surgir no segundo dia também... Ou no terceiro dia... Ou, se você tiver sorte no amor, ele vai é ressurgir todo dia e o dia todo.
O amor é dado. É de graça e não paga imposto (pelo menos, não ainda).
Ele é suor, ele é gemido, ele é corpo nu, ele é um líquido que sai como um escorregão. Afinal, ele é carnal. E ele é diplomático, posto que convive muito bem com todos os demais sentimentos, inclusive o ódio.
Ocorre entre seres humanos. Embora não seja exclusividade! Posto que também amamos bichos, e plantas, e objetos. Amor é o que eu sinto agora, escrevendo. Porque tem gente que ama escrever e, graças a Deus, há outro grupo de loucos que ama ler.
Amor é o que eu sinto quando brigo com minha mãe, porque ela ‘ainda’ se mete na minha vida. É o que sinto pelo meu pai, apesar de ele nunca acertar mexer no controle remoto da SKY. É o que eu sinto pelo meu melhor amigo, quando ele me pega em casa e me leva ao cinema. Amor são as borboletas no meu estômago, quando eu encontro “aquele” belo rapaz, à noite, e jogo olhares para ele... É o que eu sinto pelos meus irmãos, colegas de trabalho e de classe, é o que sinto pela minha professora e pela minha chefa. É o que eu sinto pelo teatro, pelos artistas, pelos meus escritores preferidos.
Amor é o que eu sinto por todos eles. E, sobretudo, amor é o que espero, do fundo do coração, que eles sintam de volta por mim.


Saulo Sisnando

domingo, 18 de janeiro de 2015

SOBRE O FIM



Para minha irmã,
e para Michele.

De todas as minhas manias, nenhuma me define mais do que aquela de abandonar livros no meio... De não ver os finais dos filmes... De não deixar o CD rodar até o final da faixa.
A imagem de um círculo incompleto não me angustia. Não me tortura não saber quem matou a mocinha ou não ver o vilão preso.
O que me corrói, ao reverso, é chegar ao fim. É virar a última página. É ver a bolha de sabão estourar. É contemplar os créditos subindo ordenadamente. O que me mata é levantar no final da sessão e deixar a cadeira vazia, é abandonar o saco de pipoca seco, é tomar o refrigerante até ouvir aquele som irritante da última gota.
É, meu grande amigo, me dói deixar que as coisas morram.
Prefiro pensá-las sempre pendentes. Ausentes, mas possíveis! Opto por parar frases em vírgulas, nunca em pontos. Pois sou sonhador e gosto continuar vivendo a espera de que tu possas terminar minhas sentenças. E o 'hoje' não seja o fim... Nem começo, mas um intermezzo. O meio de dois atos.
Por isso não me mudo... Não viajo...  Por isso sou estático... Sou rocha ignota! Para que sempre me encontres, vivendo calmo entre brisas cálidas a correr por prédios baixos, numa forma de facilitar o destino... Quando quiseres me reencontrar, estarei aqui!
Não importa onde estás agora, meu menino. Em Flóridas floridas pescando ouriços do mar ou dentro de uma nave interestelar, cruzando o tempo-espaço, em uma direção que nem meus sonhos mais altos poderiam supor. Não interessa se teus braços abraçam outros braços ou se teu sorriso ilumina outras vidas.
Pois nunca sou final. Apenas meio. E torço para que um dia retornes desta longínqua Abu Dhabi... Ou que Yemanjá, rainha de todos os santos, me ouça e te resgate de teu pequeno aquário para te devolver a mim. Para que meu coração seja não só sístole, mas diástole! E eu possa colocar, enfim, a última peça de um quebra-cabeça cósmico, que nos conecta entre as estrelas...
Para que as bolhas estourem... 
Os mortos descansem... 
E meu amor deixe de ser pó e volte a ser bruma... 
Para que todos os meus  livros possam ter um final!

Em minha estante, grande amor, há centenas de heróis sem um fim, aguardando apenas o dia em que tu descubras que o teu fim... Também é em mim.

Saulo Sisnando
18 de janeiro de 2015.

21h48