quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Holy Bible


Não se encontraram por acaso. Seus destinos – escritos por mãos de deuses analfabetos – jamais permitiram que a sorte lhes presenteasse com tal fortuna. Acharam-se por insistência. Era a sexta vez que ele pedia para que lhe mandassem a melhor de todas. Mas, nesta solitária data, enquanto todas as melhores se perdiam bêbadas entre taças de sidra e fogos de artifício, mandaram-lhe a única moça disponível.
Ela tinha olhos marrons, que denunciavam sua origem humilde, e seus sintéticos cabelos vermelhos traziam uma dignidade engraçada que, despretensiosamente, realçavam suas bochechas salientes e deixavam seu rosto encantador.
Viera para a cidade com um objetivo certo: conseguir dez mil para custear os gastos com a mãe – uma mulher magra com um enorme tumor que enchia o estômago. Na despedida, olhou para o pai e, de lábios finos, disse para não se preocupar.
“Serei atriz profissional”.
O pai abraçou-lhe com pesar. Ele sabia o que significava ser atriz, mas, como deixara a dignidade e o orgulho repousando na cabeceira da cama da esposa enferma, deixou a filha partir.
Do ofício de atriz, sobejavam apenas as roupas de borracha e os nomes americanos, que pegava aleatoriamente dos livros, que se empoeiravam enristes na estante da pensão.
Hoje, ela se chamava Holy Bible.
O homem que a contratara não sabia dos dolorosos caminhos que Holy tomara até ficar apenas de casaco em frente a ele. E foram tantos suplícios!
Mas Holy também não sabia de nada. Nem lhe passava pela cabeça que o homem fora abandonado pela esposa, apenas alguns meses depois de terem perdido o filho numa enorme piscina azul. E nestes tempos, sozinho, ele tentava preencher com amores comprados seu espírito oco, ligando para putas que encontrava em classificados.
Holy deixou seu celular sobre a mesinha da sala, tocando uma música antiga. Caminhou em direção ao homem e, simulando uma dança, abriu lentamente o sobretudo de plástico, que lhe cobria a intimidade. Sentou em seu colo e beijou-lhe os lábios com o carinho franco que só as amadoras possuem.
Enquanto beijavam-se, a música interrompeu-se e três segundos de silêncio banharam a sala, antes do som de uma mensagem de texto se anunciar.
Fechou novamente os botões da sobreveste, como se apertasse o próprio peito, consumido pela angústia que sempre lhe acompanhava... E caminhou, desequilibrada em finos e altos saltos de sapato, até a mesinha onde o celular sossegava, para ler, às três horas da manhã do primeiro dia do ano, a noticia há tanto tempo temida.
Colocou as mãos na bolsa de couro vermelho, os óculos escuros no rosto (embora não houvesse sol), o telefone no bolso e, de olhos baixos, despediu-se do único homem que deixou lágrimas indigentes rolarem pelo rosto no momento do beijo. E partiu sabendo que a sorte não permitiria a dois perdedores o acaso de se encontrarem na vida.
No dia seguinte, abandonou as roupas de plástico no armário embutido e colocou apenas as velhas vestes na mala. Comprou a passagem de volta para o Pará e percebeu que juntara apenas trezentos reais, dos dez mil que salvariam sua mãe. Espalhou-se pelo mofado estofamento, selecionou a música mais triste, dentre as armazenadas na memória do celular, e torceu em vão para que o ônibus deslizasse rapidamente pelo asfalto, na última e perdida chance de ver sua mãe, antes desta ser coberta pela calma terra, que Holy nunca teve sob os próprios pés.
Saulo Sisnando,
sobre o reveillon de 2010.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A culpa é do signo


"Num deserto de almas também desertas,
uma alma especial reconhece de imediato a outra"
Caio Fernando Abreu

"Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada"
Angela Rô Rô e Ana Terra

Não posso falar nada acerca dos homens. Deles, não entendo patavinas! Mas sobre nós, as mulheres, possuo vasto conhecimento e, por isso, sei que temos a mania terrível de inventar desculpas.
Comemos potes de sorvete porque estamos um pouco deprimidas (afinal, nós odiamos sorvete). Compramos sapatos porque detestamos nosso chefe. E gastamos uma fortuna naquele vestido (que, aliás, até se parecia com aquele outro), não porque somos malucas por uma liquidação fajuta, mas porque fomos convidadas para uma festa na qual o nosso ex também foi convidado e temos de aparecer por cima da carne seca.
Nós sempre inventamos pretextos ridículos.
E, de todos, o mais recorrente é a desculpa astrológica. Sim, a culpa é do signo! A culpada é a minha mãe que, doida de pedra, decidiu me ter no final de janeiro: numa combinação absurda de aquário, com ascendente em escorpião e a lua em libra.
Por causa do aquário, me apaixonei perdidamente por um homem, que conheci pelo Orkut e morava noutro estado. Por causa do ascendente em escorpião, tive um caso sórdido com um homem casado (eu não sabia, tá?!). E, motivada pelo desequilíbrio de uma lua em libra, eu sempre me apaixono perdidamente por rapazes, que nem conheço direito (lembram do trágico romance com o dançarino?)
Adoro estas paixões doidas por desconhecidos. Mês passado, por exemplo, me enamorei por um homem, que encontrei na fila do ponto do meu trabalho.
O meu novo príncipe é um rapaz moreno e bonito, que me jogou olhares furtivos quando eu estava na fila do ponto eletrônico.
Depois desse primeiro encontro, comecei a bolar situações malucas para esbarrar com ele nos corredores da repartição. Descobri que ele trabalha nalguma sala perto do banheiro, perto da escada, perto do restaurante e perto do prédio-anexo. Mas ainda não descobri exatamente onde... E já o encontrei duas vezes na xérox (não renego mais este serviço aos estagiários. Não! Eu mesma faço).
E pasmem!, numa sexta-feira, ele até me deu bom dia. Eu estava bem atrás dele… A menos de um braço de distância… Na fila do ponto eletrônico.
Um “bom dia” meio tímido, com cheiro de pasta de dente.
Sei não, mas, lá no fundo, achei que rolava um sentimento de volta, pois ele me encarou bem nos olhos. Todavia eu abaixei a vista. Primeiramente porque ele estava muito perto; segundamente porque queria saber como eram seus dentes. Engraçado como eu sempre me apaixono por homens com belos dentes... Os dele estão presos num aparelho! Enfim, não era um belo sorriso, mas um sorriso bonito em potencial.
Perdi o fim de semana obcecada. Congelada naquela imagem do rapaz bonito, parado no meio do corredor, e passei o domingo bolando planos para um encontro-casual-arranjado na semana seguinte.
Pensei em fazer um bilhetinho com meu nome e número de telefone. Quando cruzasse com ele, deixaria cair... Assim... Displicentemente... Como se fosse sem querer!
Mas depois desisti: seria arriscado demais! E se aquele papel caísse nas mãos de algum segurança, e eu virasse motivo de piada na sala da “TIGRE – Segurança Ltda.”?
Não fiz o bilhete!
E, pior!, não encontrei mais o belo rapaz, de dentes metálicos, por quase uma semana. Na minha cabecinha pipocavam pequenas tragédias: será que foi transferido? Exonerado? Será que pediu para mudar de setor? Será que foi para um local onde não fosse perseguindo por uma mulher encalhada e doida?
Penso sobre isso... Penso sobre minha combinação astral maluca e estas minhas paixões destrambelhadas e, no final, fico até feliz.
Essas coisas, que povoam minha existência, dão a impressão de que minha vida é um pouquinho mais divertida do que a vida das pessoas da repartição. Afinal os outros colegas de trabalho são seres estranhos que percorrem, sisudos, aqueles corredores apertados. Numa felicidade Made in Prozac.
Às vezes tenho a nítida certeza de que transformo minha história numa novela das oito. E que adoro isso! Adoro ser assim: do tipo doidinha. Porque, no final, eu me divirto. Eu quero algo a mais do que esta vidinha-classe-média-e-tailler-cheio-de-vincos-de-ferro-quente.
Quero desculpas para me apaixonar toda semana, quero encontrar aquele rapaz no ponto eletrônico, quero me apaixonar por um ator destrambelhado de alguma peça maluca, quero amar a distância e mudar de país. Tudo isto, porque quero viver! Quero pular da cadeira, toda vez que o celular apita avisando uma nova mensagem... Será que o rapaz do corredor descobriu meu número? Será que o bailarino decidiu me amar de uma vez por todas?
Quero tentar.
Posso mesmo nunca encontrar o meu grande amor. Pode ser que ele siga a letra de Ângela Rô Rô e, não apenas chegue fora da hora, como chegue cedo demais e eu não esteja preparada. Ou, pior: e se ele chegar tarde demais? Sei lá... Um belo médico me atendendo no leito de morte.
É um risco que se corre.
Mas não posso reclamar de ter passado um dia sequer, sem ter sonhado receber flores do cara bonito do elevador, um bilhete apaixonado do rapaz de cintura estreita, que malha na minha academia, ou bombons deste bendito cara do ponto eletrônico.
Mas não se preocupem comigo, no dia que o homem da minha vida aparecer, o lugar dele estará aqui: no meu coração. No lado nunca ocupado por qualquer um destes que povoam minhas paixonites agudas e meus sonhos eróticos.
Por isso, até o meu amor aparecer, eu irei toda arrumada para a repartição. Torcendo para encontrar o moreno bonito e sonhando que nossos dedos se toquem no ponto eletrônico e ele me peça em casamento na fila da Xerox.
Amanhã… Quem sabe?
Saulo Sisnando escrevendo como Maria Eduarda

domingo, 19 de dezembro de 2010

Mentiras

Sim! A cada dia surge uma nova coleção de mentiras. Dentre todas, as piores são aquelas que contamos para nós mesmos, antes de dormir. Cochichamos inverdades no escuro, que tentam nos persuadir a acreditar que somos felizes. Ou que o outro é feliz conosco. Vezenquando queremos crer que conseguiremos mudar nossas imperfeições e que, de igual modo, o outro poderá mudar por nós. Convencemo-nos de que podemos conviver em paz com os nossos pecados ou que, em último caso, podemos nunca mais voltar a praticá-los. Sim! Todas as noites, antes de cair no sono, mentimos baixinho, numa esperança louca de que, ao amanhecer, tudo terá se tornado verdade.

Livre tradução de um excerto de Desperate Housewives

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma história sem meio


inspirado pela foto de Diane Arbus.

COMEÇO: Sempre quis ter gêmeos. Quando, de sua derradeira barrigada, nasceu uma filha solitária e desgarrada, não se deu por vencida: arrancou o braço da menina e criou-o como se fosse gente. E, como pares, cresceram: uma mais que outra. Vestiam-se como cópias, estudavam no mesmo colégio e, na adolescência, juntas, descobriram o sexo, posto que a mais alta não conseguia se masturbar sem a pequenina. Construíram um relacionamento incestuoso que durou a juventude e, ressurgia vezenquando, nas noites de solidão com os maridos viajando.

FIM: Morreram no mesmo dia, em cidades diferentes. Nesta coincidência macabra, que sempre abraça os que são binários. Uma estava velha e enrugada. A outra, podre. Foram postas no mesmo caixão. Lado a lado. Acomodadas num enlace sexual perfeito. E, finalmente, a velha sem braço pode, na longa jornada rumo ao pó, ter o contrapeso do membro que, embora tivesse sido arrancado no nascimento, lhe havia fisgado ausente a vida toda.
Saulo Sisnando - 27.11.2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Toalha de retalhos


Fui eu mesma quem remendou aquela toalha que está sobre a mesa. Ela estava rasgada fazia tantos anos!
Procurei por todos os cômodos da casa um pedaço de tecido da mesma cor e mesma textura e recortei no tamanho exato da fenda,que os ratos tinham feito. Malditos roedores! Lembro-me de todos! Sentei-me na cadeira e costurei, costurei com bastante cuidado e esmero para que não se pudesse ver a linha, perdida na própria textura do tecido. Fiz tudo sem pressa, para que ficasse perfeita.
Os talheres talvez não fossem de ouro. Mas brilhavam como. E os pratos eram antigos, porcelana guardada num baú de família. Abri a velha arca, com uma dor de quem invade privacidade de si próprio, e limpei os pratos um por um. Voltaram a ser alvos, cheios daquelas rachadurazinhas de porcelana antiga. Um espelho branco, frio. Uma face distorcida no reflexo da luz.
Tudo estava pronto! Uma meia luz trazia o clima de cinema antigo. A música era a mais bela que pude encontrar. Tudo estava perfeito, tenso, esperançoso.
E o meu vestido... Branco! Justo nas ancas. Frouxo nas pernas; uma bela saia rodada. Escondia o que tinha de esconder e mostrava o que merecia. Sobre os seios, zircônio, strass, vidro, cristal, mas naquela hora tudo parecia diamante. Eram pedrarias de inestimável valor.
Sentei-me à mesa e te esperei entrar. Imaginei a roupa, os sapatos, a forma como estava penteado o teu cabelo. Virias já segurando um cigarro na mão, frouxamente entre dedos? Teus óculos, aqueles que te deixavam tão mais bonito, um ar de filósofo; teria os óculos presos à face? Ou viria míope, com mágicos olhos perdidos, apenas para que eu não olhasse pra ti como um deficiente?
Qual a cor do teu terno? A cor de tua gravata? Qual seria sua primeira palavra?
Mas, de repente, senti que a sala estava em silêncio doentil. O disco de Gardel girava na vitrola sem agulha. Nada. A lua não aparecia: nova. As horas passavam e me sentia desconfortável entre tantas pedras preciosas.
Então, um apito. Um carteiro chegou nas altas horas da noite. Entregou-me um envelope branco; poderia ser vermelho, verde ou mesmo preto. Mas era branco! Pálido. Destoante de todo o clima da sala montada.
Segurei sobre o peito, as pedras faziam barulho. Tilintavam ainda inconscientes. Não tinha coragem de abrir. Sentei na cadeira novamente, prendi o envelope na palma da mão.
O calendário ao canto da sala dizia que era lua nova. Abri o envelope e calmamente li cada uma das quatro palavras escritas: “eu não te amo”.
Assim, soube que eu não veria como tu tinhas arrumado o cabelo, como estavas a segurar o teu cigarro, ou qual era a cor da tua gravata. Soube que mesmo que estivesse a poucos passos, pro resto da minha vida estaria longe: Egito, Madagascar, Canárias.
Teus olhos pretos permaneceriam pretos. Teu olhar perdido, perdido. Tua perna arqueada pra trás. Tudo em ti permaneceria igual. Apenas eu não estaria por perto para viver-te. Quanto trabalho eu tive na toalha de retalhos!
Larguei a carta sobre a mesa. Passeei pela última vez a mão no remendo da toalha: estava perfeita! Apaguei a luz, tranquei a porta.
A sala estava, mais uma vez, morta. Eu nunca mais entraria lá. Nem pra ver de longe toda a poeira sobre os móveis, o vento invadindo tudo pela janela jamais fechada, os castiçais caídos, as folhas secas transformando a paisagem. A toalha estaria lá, a se amarelecer ao longo dos anos, estragando todo o meu trabalho, o meu orgulho de ter feito tudo tão perfeitamente e novamente livre para ser roída por ratos.
Quanto trabalho eu tive para unir a toalha ao retalho.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Vou esperar

(talvez)
Um dia tu dirás que me ama
Vou esperar... Mesmo que este dia esteja longe
Vou esperar tu encostares em meu peito e teres vontade de dormir
Da mesma forma como eu me aconchego nos teus abraços...
Sentindo-te como ninho, cama.
Enlaçando-te fortemente com braços nus e sentindo-te contra mim
Quente e macio.
Vou esperar!


Vou esperar quietinho um dia tu me admirares
Como eu admiro os passos de tua dança
Esperar tu encontrares nos meus lábios a suavidade que encontro nos teus
Ao mesmo tempo em que nossos cílios se tocam
Piscam e nossos olhos se enxergam tão de perto... Pretos.
Vou esperar cada abraço teu...
Cada boa noite antes de dormir
Como se essa fosse minha prece,
Meu caminho para o céu, minha salvação!
Esperar pacientemente o meu corpo se encontrar ao teu
Um dia, quem sabe?
Belamente... Completamente...
Ser apenas um.
Esperar o amor surgir nos teus olhos grandes e negros
Esperar que me olhes cada vez como uma primeira vez...
Apaixonando-te de novo... De novo... De novo...


No futuro, vou esperar tuas rugas refletirem as minhas.
Tuas esperanças se tornarem minhas expectativas
E meus sonhos virarem teu maior empenho
Espero tua face corar a cada felicidade nossa
E tua mão tentar conter as lágrimas nas inevitáveis tristezas
Espero caminhar
Caminhar de mãos dadas... Unidas... Úmidas... Suadas...
Quero te ver temendo o futuro
Entender por que não róis as unhas,
Vou esperar...
Esperar ao teu lado...
Esperar pelo grande dia que tu dirás “eu te amo”
E eu direi o mesmo.
Então o mundo poderá acabar
O rio salgar e morrer todos os peixes
O sol apagar
A noite ser eterna, e a existência humana se findar
Porque nós dois teremos um universo à parte
Girando... Girando...
Um cata-vento...
Uma eternidade...
Um homem para amar intensamente
Um amor verdadeiro...
Inteiro.

Saulo Sisnando