quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Toalha de retalhos


Fui eu mesma quem remendou aquela toalha que está sobre a mesa. Ela estava rasgada fazia tantos anos!
Procurei por todos os cômodos da casa um pedaço de tecido da mesma cor e mesma textura e recortei no tamanho exato da fenda,que os ratos tinham feito. Malditos roedores! Lembro-me de todos! Sentei-me na cadeira e costurei, costurei com bastante cuidado e esmero para que não se pudesse ver a linha, perdida na própria textura do tecido. Fiz tudo sem pressa, para que ficasse perfeita.
Os talheres talvez não fossem de ouro. Mas brilhavam como. E os pratos eram antigos, porcelana guardada num baú de família. Abri a velha arca, com uma dor de quem invade privacidade de si próprio, e limpei os pratos um por um. Voltaram a ser alvos, cheios daquelas rachadurazinhas de porcelana antiga. Um espelho branco, frio. Uma face distorcida no reflexo da luz.
Tudo estava pronto! Uma meia luz trazia o clima de cinema antigo. A música era a mais bela que pude encontrar. Tudo estava perfeito, tenso, esperançoso.
E o meu vestido... Branco! Justo nas ancas. Frouxo nas pernas; uma bela saia rodada. Escondia o que tinha de esconder e mostrava o que merecia. Sobre os seios, zircônio, strass, vidro, cristal, mas naquela hora tudo parecia diamante. Eram pedrarias de inestimável valor.
Sentei-me à mesa e te esperei entrar. Imaginei a roupa, os sapatos, a forma como estava penteado o teu cabelo. Virias já segurando um cigarro na mão, frouxamente entre dedos? Teus óculos, aqueles que te deixavam tão mais bonito, um ar de filósofo; teria os óculos presos à face? Ou viria míope, com mágicos olhos perdidos, apenas para que eu não olhasse pra ti como um deficiente?
Qual a cor do teu terno? A cor de tua gravata? Qual seria sua primeira palavra?
Mas, de repente, senti que a sala estava em silêncio doentil. O disco de Gardel girava na vitrola sem agulha. Nada. A lua não aparecia: nova. As horas passavam e me sentia desconfortável entre tantas pedras preciosas.
Então, um apito. Um carteiro chegou nas altas horas da noite. Entregou-me um envelope branco; poderia ser vermelho, verde ou mesmo preto. Mas era branco! Pálido. Destoante de todo o clima da sala montada.
Segurei sobre o peito, as pedras faziam barulho. Tilintavam ainda inconscientes. Não tinha coragem de abrir. Sentei na cadeira novamente, prendi o envelope na palma da mão.
O calendário ao canto da sala dizia que era lua nova. Abri o envelope e calmamente li cada uma das quatro palavras escritas: “eu não te amo”.
Assim, soube que eu não veria como tu tinhas arrumado o cabelo, como estavas a segurar o teu cigarro, ou qual era a cor da tua gravata. Soube que mesmo que estivesse a poucos passos, pro resto da minha vida estaria longe: Egito, Madagascar, Canárias.
Teus olhos pretos permaneceriam pretos. Teu olhar perdido, perdido. Tua perna arqueada pra trás. Tudo em ti permaneceria igual. Apenas eu não estaria por perto para viver-te. Quanto trabalho eu tive na toalha de retalhos!
Larguei a carta sobre a mesa. Passeei pela última vez a mão no remendo da toalha: estava perfeita! Apaguei a luz, tranquei a porta.
A sala estava, mais uma vez, morta. Eu nunca mais entraria lá. Nem pra ver de longe toda a poeira sobre os móveis, o vento invadindo tudo pela janela jamais fechada, os castiçais caídos, as folhas secas transformando a paisagem. A toalha estaria lá, a se amarelecer ao longo dos anos, estragando todo o meu trabalho, o meu orgulho de ter feito tudo tão perfeitamente e novamente livre para ser roída por ratos.
Quanto trabalho eu tive para unir a toalha ao retalho.

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