quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Holy Bible


Não se encontraram por acaso. Seus destinos – escritos por mãos de deuses analfabetos – jamais permitiram que a sorte lhes presenteasse com tal fortuna. Acharam-se por insistência. Era a sexta vez que ele pedia para que lhe mandassem a melhor de todas. Mas, nesta solitária data, enquanto todas as melhores se perdiam bêbadas entre taças de sidra e fogos de artifício, mandaram-lhe a única moça disponível.
Ela tinha olhos marrons, que denunciavam sua origem humilde, e seus sintéticos cabelos vermelhos traziam uma dignidade engraçada que, despretensiosamente, realçavam suas bochechas salientes e deixavam seu rosto encantador.
Viera para a cidade com um objetivo certo: conseguir dez mil para custear os gastos com a mãe – uma mulher magra com um enorme tumor que enchia o estômago. Na despedida, olhou para o pai e, de lábios finos, disse para não se preocupar.
“Serei atriz profissional”.
O pai abraçou-lhe com pesar. Ele sabia o que significava ser atriz, mas, como deixara a dignidade e o orgulho repousando na cabeceira da cama da esposa enferma, deixou a filha partir.
Do ofício de atriz, sobejavam apenas as roupas de borracha e os nomes americanos, que pegava aleatoriamente dos livros, que se empoeiravam enristes na estante da pensão.
Hoje, ela se chamava Holy Bible.
O homem que a contratara não sabia dos dolorosos caminhos que Holy tomara até ficar apenas de casaco em frente a ele. E foram tantos suplícios!
Mas Holy também não sabia de nada. Nem lhe passava pela cabeça que o homem fora abandonado pela esposa, apenas alguns meses depois de terem perdido o filho numa enorme piscina azul. E nestes tempos, sozinho, ele tentava preencher com amores comprados seu espírito oco, ligando para putas que encontrava em classificados.
Holy deixou seu celular sobre a mesinha da sala, tocando uma música antiga. Caminhou em direção ao homem e, simulando uma dança, abriu lentamente o sobretudo de plástico, que lhe cobria a intimidade. Sentou em seu colo e beijou-lhe os lábios com o carinho franco que só as amadoras possuem.
Enquanto beijavam-se, a música interrompeu-se e três segundos de silêncio banharam a sala, antes do som de uma mensagem de texto se anunciar.
Fechou novamente os botões da sobreveste, como se apertasse o próprio peito, consumido pela angústia que sempre lhe acompanhava... E caminhou, desequilibrada em finos e altos saltos de sapato, até a mesinha onde o celular sossegava, para ler, às três horas da manhã do primeiro dia do ano, a noticia há tanto tempo temida.
Colocou as mãos na bolsa de couro vermelho, os óculos escuros no rosto (embora não houvesse sol), o telefone no bolso e, de olhos baixos, despediu-se do único homem que deixou lágrimas indigentes rolarem pelo rosto no momento do beijo. E partiu sabendo que a sorte não permitiria a dois perdedores o acaso de se encontrarem na vida.
No dia seguinte, abandonou as roupas de plástico no armário embutido e colocou apenas as velhas vestes na mala. Comprou a passagem de volta para o Pará e percebeu que juntara apenas trezentos reais, dos dez mil que salvariam sua mãe. Espalhou-se pelo mofado estofamento, selecionou a música mais triste, dentre as armazenadas na memória do celular, e torceu em vão para que o ônibus deslizasse rapidamente pelo asfalto, na última e perdida chance de ver sua mãe, antes desta ser coberta pela calma terra, que Holy nunca teve sob os próprios pés.
Saulo Sisnando,
sobre o reveillon de 2010.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A culpa é do signo


"Num deserto de almas também desertas,
uma alma especial reconhece de imediato a outra"
Caio Fernando Abreu

"Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada"
Angela Rô Rô e Ana Terra

Não posso falar nada acerca dos homens. Deles, não entendo patavinas! Mas sobre nós, as mulheres, possuo vasto conhecimento e, por isso, sei que temos a mania terrível de inventar desculpas.
Comemos potes de sorvete porque estamos um pouco deprimidas (afinal, nós odiamos sorvete). Compramos sapatos porque detestamos nosso chefe. E gastamos uma fortuna naquele vestido (que, aliás, até se parecia com aquele outro), não porque somos malucas por uma liquidação fajuta, mas porque fomos convidadas para uma festa na qual o nosso ex também foi convidado e temos de aparecer por cima da carne seca.
Nós sempre inventamos pretextos ridículos.
E, de todos, o mais recorrente é a desculpa astrológica. Sim, a culpa é do signo! A culpada é a minha mãe que, doida de pedra, decidiu me ter no final de janeiro: numa combinação absurda de aquário, com ascendente em escorpião e a lua em libra.
Por causa do aquário, me apaixonei perdidamente por um homem, que conheci pelo Orkut e morava noutro estado. Por causa do ascendente em escorpião, tive um caso sórdido com um homem casado (eu não sabia, tá?!). E, motivada pelo desequilíbrio de uma lua em libra, eu sempre me apaixono perdidamente por rapazes, que nem conheço direito (lembram do trágico romance com o dançarino?)
Adoro estas paixões doidas por desconhecidos. Mês passado, por exemplo, me enamorei por um homem, que encontrei na fila do ponto do meu trabalho.
O meu novo príncipe é um rapaz moreno e bonito, que me jogou olhares furtivos quando eu estava na fila do ponto eletrônico.
Depois desse primeiro encontro, comecei a bolar situações malucas para esbarrar com ele nos corredores da repartição. Descobri que ele trabalha nalguma sala perto do banheiro, perto da escada, perto do restaurante e perto do prédio-anexo. Mas ainda não descobri exatamente onde... E já o encontrei duas vezes na xérox (não renego mais este serviço aos estagiários. Não! Eu mesma faço).
E pasmem!, numa sexta-feira, ele até me deu bom dia. Eu estava bem atrás dele… A menos de um braço de distância… Na fila do ponto eletrônico.
Um “bom dia” meio tímido, com cheiro de pasta de dente.
Sei não, mas, lá no fundo, achei que rolava um sentimento de volta, pois ele me encarou bem nos olhos. Todavia eu abaixei a vista. Primeiramente porque ele estava muito perto; segundamente porque queria saber como eram seus dentes. Engraçado como eu sempre me apaixono por homens com belos dentes... Os dele estão presos num aparelho! Enfim, não era um belo sorriso, mas um sorriso bonito em potencial.
Perdi o fim de semana obcecada. Congelada naquela imagem do rapaz bonito, parado no meio do corredor, e passei o domingo bolando planos para um encontro-casual-arranjado na semana seguinte.
Pensei em fazer um bilhetinho com meu nome e número de telefone. Quando cruzasse com ele, deixaria cair... Assim... Displicentemente... Como se fosse sem querer!
Mas depois desisti: seria arriscado demais! E se aquele papel caísse nas mãos de algum segurança, e eu virasse motivo de piada na sala da “TIGRE – Segurança Ltda.”?
Não fiz o bilhete!
E, pior!, não encontrei mais o belo rapaz, de dentes metálicos, por quase uma semana. Na minha cabecinha pipocavam pequenas tragédias: será que foi transferido? Exonerado? Será que pediu para mudar de setor? Será que foi para um local onde não fosse perseguindo por uma mulher encalhada e doida?
Penso sobre isso... Penso sobre minha combinação astral maluca e estas minhas paixões destrambelhadas e, no final, fico até feliz.
Essas coisas, que povoam minha existência, dão a impressão de que minha vida é um pouquinho mais divertida do que a vida das pessoas da repartição. Afinal os outros colegas de trabalho são seres estranhos que percorrem, sisudos, aqueles corredores apertados. Numa felicidade Made in Prozac.
Às vezes tenho a nítida certeza de que transformo minha história numa novela das oito. E que adoro isso! Adoro ser assim: do tipo doidinha. Porque, no final, eu me divirto. Eu quero algo a mais do que esta vidinha-classe-média-e-tailler-cheio-de-vincos-de-ferro-quente.
Quero desculpas para me apaixonar toda semana, quero encontrar aquele rapaz no ponto eletrônico, quero me apaixonar por um ator destrambelhado de alguma peça maluca, quero amar a distância e mudar de país. Tudo isto, porque quero viver! Quero pular da cadeira, toda vez que o celular apita avisando uma nova mensagem... Será que o rapaz do corredor descobriu meu número? Será que o bailarino decidiu me amar de uma vez por todas?
Quero tentar.
Posso mesmo nunca encontrar o meu grande amor. Pode ser que ele siga a letra de Ângela Rô Rô e, não apenas chegue fora da hora, como chegue cedo demais e eu não esteja preparada. Ou, pior: e se ele chegar tarde demais? Sei lá... Um belo médico me atendendo no leito de morte.
É um risco que se corre.
Mas não posso reclamar de ter passado um dia sequer, sem ter sonhado receber flores do cara bonito do elevador, um bilhete apaixonado do rapaz de cintura estreita, que malha na minha academia, ou bombons deste bendito cara do ponto eletrônico.
Mas não se preocupem comigo, no dia que o homem da minha vida aparecer, o lugar dele estará aqui: no meu coração. No lado nunca ocupado por qualquer um destes que povoam minhas paixonites agudas e meus sonhos eróticos.
Por isso, até o meu amor aparecer, eu irei toda arrumada para a repartição. Torcendo para encontrar o moreno bonito e sonhando que nossos dedos se toquem no ponto eletrônico e ele me peça em casamento na fila da Xerox.
Amanhã… Quem sabe?
Saulo Sisnando escrevendo como Maria Eduarda

domingo, 19 de dezembro de 2010

Mentiras

Sim! A cada dia surge uma nova coleção de mentiras. Dentre todas, as piores são aquelas que contamos para nós mesmos, antes de dormir. Cochichamos inverdades no escuro, que tentam nos persuadir a acreditar que somos felizes. Ou que o outro é feliz conosco. Vezenquando queremos crer que conseguiremos mudar nossas imperfeições e que, de igual modo, o outro poderá mudar por nós. Convencemo-nos de que podemos conviver em paz com os nossos pecados ou que, em último caso, podemos nunca mais voltar a praticá-los. Sim! Todas as noites, antes de cair no sono, mentimos baixinho, numa esperança louca de que, ao amanhecer, tudo terá se tornado verdade.

Livre tradução de um excerto de Desperate Housewives

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma história sem meio


inspirado pela foto de Diane Arbus.

COMEÇO: Sempre quis ter gêmeos. Quando, de sua derradeira barrigada, nasceu uma filha solitária e desgarrada, não se deu por vencida: arrancou o braço da menina e criou-o como se fosse gente. E, como pares, cresceram: uma mais que outra. Vestiam-se como cópias, estudavam no mesmo colégio e, na adolescência, juntas, descobriram o sexo, posto que a mais alta não conseguia se masturbar sem a pequenina. Construíram um relacionamento incestuoso que durou a juventude e, ressurgia vezenquando, nas noites de solidão com os maridos viajando.

FIM: Morreram no mesmo dia, em cidades diferentes. Nesta coincidência macabra, que sempre abraça os que são binários. Uma estava velha e enrugada. A outra, podre. Foram postas no mesmo caixão. Lado a lado. Acomodadas num enlace sexual perfeito. E, finalmente, a velha sem braço pode, na longa jornada rumo ao pó, ter o contrapeso do membro que, embora tivesse sido arrancado no nascimento, lhe havia fisgado ausente a vida toda.
Saulo Sisnando - 27.11.2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Toalha de retalhos


Fui eu mesma quem remendou aquela toalha que está sobre a mesa. Ela estava rasgada fazia tantos anos!
Procurei por todos os cômodos da casa um pedaço de tecido da mesma cor e mesma textura e recortei no tamanho exato da fenda,que os ratos tinham feito. Malditos roedores! Lembro-me de todos! Sentei-me na cadeira e costurei, costurei com bastante cuidado e esmero para que não se pudesse ver a linha, perdida na própria textura do tecido. Fiz tudo sem pressa, para que ficasse perfeita.
Os talheres talvez não fossem de ouro. Mas brilhavam como. E os pratos eram antigos, porcelana guardada num baú de família. Abri a velha arca, com uma dor de quem invade privacidade de si próprio, e limpei os pratos um por um. Voltaram a ser alvos, cheios daquelas rachadurazinhas de porcelana antiga. Um espelho branco, frio. Uma face distorcida no reflexo da luz.
Tudo estava pronto! Uma meia luz trazia o clima de cinema antigo. A música era a mais bela que pude encontrar. Tudo estava perfeito, tenso, esperançoso.
E o meu vestido... Branco! Justo nas ancas. Frouxo nas pernas; uma bela saia rodada. Escondia o que tinha de esconder e mostrava o que merecia. Sobre os seios, zircônio, strass, vidro, cristal, mas naquela hora tudo parecia diamante. Eram pedrarias de inestimável valor.
Sentei-me à mesa e te esperei entrar. Imaginei a roupa, os sapatos, a forma como estava penteado o teu cabelo. Virias já segurando um cigarro na mão, frouxamente entre dedos? Teus óculos, aqueles que te deixavam tão mais bonito, um ar de filósofo; teria os óculos presos à face? Ou viria míope, com mágicos olhos perdidos, apenas para que eu não olhasse pra ti como um deficiente?
Qual a cor do teu terno? A cor de tua gravata? Qual seria sua primeira palavra?
Mas, de repente, senti que a sala estava em silêncio doentil. O disco de Gardel girava na vitrola sem agulha. Nada. A lua não aparecia: nova. As horas passavam e me sentia desconfortável entre tantas pedras preciosas.
Então, um apito. Um carteiro chegou nas altas horas da noite. Entregou-me um envelope branco; poderia ser vermelho, verde ou mesmo preto. Mas era branco! Pálido. Destoante de todo o clima da sala montada.
Segurei sobre o peito, as pedras faziam barulho. Tilintavam ainda inconscientes. Não tinha coragem de abrir. Sentei na cadeira novamente, prendi o envelope na palma da mão.
O calendário ao canto da sala dizia que era lua nova. Abri o envelope e calmamente li cada uma das quatro palavras escritas: “eu não te amo”.
Assim, soube que eu não veria como tu tinhas arrumado o cabelo, como estavas a segurar o teu cigarro, ou qual era a cor da tua gravata. Soube que mesmo que estivesse a poucos passos, pro resto da minha vida estaria longe: Egito, Madagascar, Canárias.
Teus olhos pretos permaneceriam pretos. Teu olhar perdido, perdido. Tua perna arqueada pra trás. Tudo em ti permaneceria igual. Apenas eu não estaria por perto para viver-te. Quanto trabalho eu tive na toalha de retalhos!
Larguei a carta sobre a mesa. Passeei pela última vez a mão no remendo da toalha: estava perfeita! Apaguei a luz, tranquei a porta.
A sala estava, mais uma vez, morta. Eu nunca mais entraria lá. Nem pra ver de longe toda a poeira sobre os móveis, o vento invadindo tudo pela janela jamais fechada, os castiçais caídos, as folhas secas transformando a paisagem. A toalha estaria lá, a se amarelecer ao longo dos anos, estragando todo o meu trabalho, o meu orgulho de ter feito tudo tão perfeitamente e novamente livre para ser roída por ratos.
Quanto trabalho eu tive para unir a toalha ao retalho.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Vou esperar

(talvez)
Um dia tu dirás que me ama
Vou esperar... Mesmo que este dia esteja longe
Vou esperar tu encostares em meu peito e teres vontade de dormir
Da mesma forma como eu me aconchego nos teus abraços...
Sentindo-te como ninho, cama.
Enlaçando-te fortemente com braços nus e sentindo-te contra mim
Quente e macio.
Vou esperar!


Vou esperar quietinho um dia tu me admirares
Como eu admiro os passos de tua dança
Esperar tu encontrares nos meus lábios a suavidade que encontro nos teus
Ao mesmo tempo em que nossos cílios se tocam
Piscam e nossos olhos se enxergam tão de perto... Pretos.
Vou esperar cada abraço teu...
Cada boa noite antes de dormir
Como se essa fosse minha prece,
Meu caminho para o céu, minha salvação!
Esperar pacientemente o meu corpo se encontrar ao teu
Um dia, quem sabe?
Belamente... Completamente...
Ser apenas um.
Esperar o amor surgir nos teus olhos grandes e negros
Esperar que me olhes cada vez como uma primeira vez...
Apaixonando-te de novo... De novo... De novo...


No futuro, vou esperar tuas rugas refletirem as minhas.
Tuas esperanças se tornarem minhas expectativas
E meus sonhos virarem teu maior empenho
Espero tua face corar a cada felicidade nossa
E tua mão tentar conter as lágrimas nas inevitáveis tristezas
Espero caminhar
Caminhar de mãos dadas... Unidas... Úmidas... Suadas...
Quero te ver temendo o futuro
Entender por que não róis as unhas,
Vou esperar...
Esperar ao teu lado...
Esperar pelo grande dia que tu dirás “eu te amo”
E eu direi o mesmo.
Então o mundo poderá acabar
O rio salgar e morrer todos os peixes
O sol apagar
A noite ser eterna, e a existência humana se findar
Porque nós dois teremos um universo à parte
Girando... Girando...
Um cata-vento...
Uma eternidade...
Um homem para amar intensamente
Um amor verdadeiro...
Inteiro.

Saulo Sisnando

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Não fujas de mim



Escrito para a pessoa ausente e após tanto amor
na apresentação do grupo Verbus


"Não fujas de mim neste dia, pois ha horas a serem vividas, lábios a serem tocados e pudores a serem desvendados. Tende piedade desta amadora e não resignes ao altruísta temor de me fazer sofrer. Pois o estorvo é meu. Esteja comigo mesmo que instigado pelo egoísmo, sem se inquietar com meu tormento intimo. Pois, desde que te conheci, esta aflição que embebeda meu seio é o ultimo sobejo que inda me pertence e que é somente meu. Sem duvida, amado, neste óbolo que é nosso amor, as duas faces são doloridas: se ficares, não ha paz; se te fores, um turbilhão de dores. Desse modo escolho a nossa exaustão diária. Prefiro Sofrer junto a padecer avulsa. Afinal não nasci para ser só. Embora o destino disso não saiba”.


Saulo Sisnando
28.11.2010
23h56min

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amo-te





Para meu desvairado amor,
Como pedido de perdão pelo nosso
Carinhoso, mas tão mal feito sexo.
Ainda te amo.






Amo-te como horas que não passam
Aprisionando-me num momento estanque recheado de encanto e martírio


Amo-te como o azul
[melancólico] cheio de dor
Que explode em deslumbradas nuanças quando tu danças
Naquele teu dom de colorizar senis fotogramas diários


Amo-te pelos teus sonhos, querendo-te assim pelo que nem és
E admirando-te como o amanhã
[impreciso] sem saber se seremos nós,
Como um presente embrulhado sob um pinheiro branco
Aguardando a hora de se tornar clímax.


Amo-te, enfim, pela morte que me causas diariamente
E pela vida que colocas em meu peito cada vez que eu te toco.

Saulo Sisnando
23.11.2010
23h22min

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E se...





Ontem, nesta ansiosa angústia que tem sido minhas noites, tive um sonho estranho.
Minha mãe apareceu para mim. E ela estava jovem. Numa juventude tão perfeita em detalhes que é impossível se reproduzir, quando envelhecemos junto das pessoas.
Com aquele olhar de viés, que me acompanhou por toda a vida e que hoje me faz tanta falta, disse-me que se eu estava tão triste... Se tudo tinha dado tão errado... Ela me daria a chance de fazer de novo. Reviver tudo. Recompor meu caminho com novos detalhes.
Deslizou as mãos pelas coxas, como se alisasse as dobras do vestido de florzinha, e falou-me que se deitasse em seu colo e fechasse por um instante os olhos, ao acordar seria uma criança.
Pensei em regressar e soube que se retrocedesse, eu esqueceria as coisas ruins, mas também não saberia das felicidades que tive na vida.
Se eu pudesse não ter conhecido o João, e não tivesse vivido tantos momentos difíceis: onde estaria o Flavio? Afinal meu melhor amigo apareceu graças ao mais triste momento de minha vida.
Entendi que a vida é uma linha que não se repete. A nossa história é uma fileira tênue desenhada por uma imprecisa sucessão de coincidências e gloriosos acidentes. Se voltássemos no tempo, decerto os acasos seriam diversos. As conquistas e perdas, outras.
Se eu pudesse pular as recordações ruins deste meu passado, não chegaria às boas memórias e conquistas deste meu presente.
Quem me garantiria que eu estaria na mesma sala da Neyara?, que, por um imprevisto, foi transferida de turma na sétima série e até hoje conversa diariamente comigo pelo fone.
Se eu tivesse feito teatro desde cedo... Se eu tivesse ido pro Rio jovem... Onde estaria o Miguel?
E se uma gripe me tivesse privado de conhecer o Marcus, um acidente tivesse tirado a vida dos meus pais e um esquecimento me tivesse feito marcar questões erradas no concurso do T.J.E. e não conhecesse a Cris, a Tânia, a Dra. Laura.
Decidi, de coração partido, não deitar no colo da minha mãe jovem e acordei adulto. Certo de que não sou o mais feliz, nem o mais importante, nem o mais belo, nem o mais magro. Porém com muito apego e carinho às coisas e pessoas que estão a minha volta. Sei que se tivesse voltado no tempo, outras boas lembranças também existiriam. Mas não consigo imaginar minha existência sem estes meus amigos, que o acaso colocou no meu caminho.
É bom descobrir que você tem orgulho das próprias lembranças. É maravilhoso ter um sonho destes e se deparar com uma vida com mais compensações do que desenganos.
Obrigado, meus amigos, do fundo do meu coração, por estarem ao meu lado nesta existência. E que permaneçam juntinhos a mim por muito tempo, me ajudando a enfrentar os novos e desconhecidos acasos que meu destino ainda reserva.

sábado, 6 de novembro de 2010

A equação do amor ao fim


Se temos de - [nos (dissolver em moléculas)] = que pelo menos seja assim + em (SlOw MOtion)
.
.
Saulo Sisnando, que nunca entendeu de
Matemática,
escrevendo como
Saulo Sisnando

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A crônica do amor platônico ou A mais complicada matemática


Ô coisinha complicada é esse tal amor. Você já pensou em quantas pessoas existem na sua rua ou no seu bairro? Centenas, certo? Pense então na cidade em que você vive, deve haver milhões de pessoas mais ou menos iguais a você. Se pensarmos no país, serão centenas de milhões; e no mundo, então, nem se fala!, são não sei quantos bilhões. Imagine que nessa infinidade de pessoas que existem, você escolheu ‘uma’ para amar. Agora vamos passar pela cabeça a remota possibilidade de que mesmo existindo esse oceano de pessoas, ocorreu a conjunção cósmica perfeita que fez o ser que você ama te amar de volta. Matematicamente parece ser um resultado bem improvável pensando nesses bilhões corpos que passeiam pelo mundo. Eu creio que é por isso que tem tanta gente sofrendo de amor (escrevo este texto porque sofro por um!), pois é uma sorte danada você amar exatamente a pessoa que te ama. Se você é um dos felizardos dessa loteria mais difícil que a MegaSena: agarre esse homem, case logo e tenha muitos filhos, porque a sorte pode não bater de novo na sua porta.


Agora se você é um dos sofredores, um dos ímpares dessa bizarra matemática; resta esperar! Esperar o telefone tocar, mesmo tendo certeza de que ele não vai ligar, resta abrir a caixa de e-mails a cada 5 minutos para ver se ele não respondeu aquele cartãozinho virtual gracioso que você enviou anexado a uma mensagem milimetricamente calculada. E quando chega o correio (o tradicional), é aquele alvoroço, querendo ver se ele não mandou alguma carta, mesmo sabendo ele não faz a menor idéia de onde você mora e mesmo que tenha a certeza de que ele não é tão romântico a ponto de mandar uma carta de amor; pelo simples motivo que ele não te ama! No entanto, não custa nada sonhar com isso, pois não há nada mais belo que uma carta de amor. Enfim, resta sofrer! Resta mandar mensagens pelo celular perguntando como ele está passando (e ele nunca responde!), resta dirigir prestando bastante atenção pelas calçadas porque um dia ele disse que te viu passando de carro, resta se arrumar com a roupa mais bonita para passear no shopping, porque da última vez que você o encontrou foi na praça de alimentação do Iguatemi.


Há horas em que se tem certeza de que tudo isso é karma de alguma encarnação passada, onde ele foi arrasado, espezinhado, pisado e maltratado por você. Pronto, é isso! Agora nessa vida você é quem vai ter de pagar pelo que fez. Só mesmo um karma de vida passada para que ele sempre te encontre no seu pior dia... Quando você foi ao cinema com aquela blusa vermelha de listras amarelas que te deixa enorme de gorda (um bolo-fofo), quando ele vai justamente assistir aquela peça de teatro ridícula que você fazia parte e todos os seus amigos comentaram que você parecia uma sapatão. Só mesmo karma, para explicar a sua voz que treme tanto todas as vezes que você o encontra; só karma, para fazer com que na hora H você esqueça todos as perguntas e opiniões que fariam ele te achar tão inteligente. Só mesmo sendo um karma dos brabos!


Apesar de eu odiar frases conformistas, na mesma proporção em que odeio as vidas passadas, creio que no final vai acabar dando certo e alguém lá em cima deve estar guardando alguma para você. Sei lá, você vai ganhar o prêmio jabuti por causa do romance que escreveu inspirado nesse amor; vai emagrecer, ficar linda e ele vai cair na real de que sempre te amou; ou talvez algo melhor, você vai lá na farmácia comprar algum remédio para as suas arritmias que recomeçaram e de repente pára ao seu lado um homem maravilhoso (que também está sofrendo de amor!). E ele esta ali, parado, comprando um remédio para dor de cabeça e, sem segundas intenções, você acaba ensinando aquele chá milagroso que a sua mãe sempre fazia. Vai cada um para a suas casas e após alguns dias ele te liga para dizer que nunca mais sentiu aquelas terríveis dores e que deve essa grande felicidade a você. Então em 5 minutos no telefone, já deram várias gargalhadas, você já sabe que ele detesta purê de batata e que, como em seus sonhos, ele lê poemas do Mario Quintana. Bem, aí marcam um cinema, ele a vê com uma roupa maravilhosa e com todas as suas opiniões e frases feitas que ele finge não notar que são feitas só para te agradar. Depois disso, vocês mandam pras cucúias a dificílima matemática dos milhões e descobrem que nem precisavam ter sofrido tanto.


Mas se esse lance de vidas passadas for sério mesmo, permaneço fiel àquela frase conformista. Dê um tempo, espere, faça coisas: matricule-se em aulas de fotografia, escreva bem muito, dedique-se ao estudo do Glam-Rock inglês ou mergulhe na oceanografia. Leia muitos livros de astronomia, tente entender as várias dimensões do universo e a teoria da Ressonância Mórfica, viaje, veja de perto os quadros do Francis Bacon. O tempo vai passando, passando, e você pode ir embora. Se mudar lá pro Nepal depois que você passou no Instituto Rio Branco e virou embaixadora. Talvez ele vá mesmo lá pros Estados Unidos fazer aquela pós-graduação em reengenharia de software, talvez ele se mude para sempre pra Dinamarca. Vão ficar vivendo, independentes um do outro, até o belo dia em que, numa lotada sessão de cinema, aquele belo coroa alvo senta ao seu lado e você se vira e reconhece aqueles olhinhos de foca, aqueles dentes que não estão mais presos no aparelho e, acima de tudo, as covinhas que ainda são lindas. Ele vai olhar para você e não te ver com a sua melhor roupa (mas também não vai te ver com aquela blusa vermelha medonha!), as frases prontas continuarão fugindo da memória. Mas vai gostar de você mesmo assim, então vão chorar pelo tempo perdido e se consolar pelo grande caminho de tijolos amarelos que ainda resta pela frente, caminharão de mãos dadas, num passo acertado de quem não tem tempo a perder. Um belo final, não?! Só precisa ter paciência.

Portanto, meu amor, depois disso tudo, só me resta dizer uma última coisa: “eu estou te esperando nalguma sessão de cinema!”
Saulo Sisnando escrevendo como
Maria Eduarda

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Miau #4


Te gosto mais do que eu poderia,
mais do que eu deveria,
mais do que eu gostaria.

Enfim te amo na medida que tu mereces.
Saulo Sisnando escrevendo como
Saulo Sisnando

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Quatro Vs Cadáver: humor, diversão e versatilidade


por Orlando Simões



Há muitos e muitos séculos o teatro tem sido uma das mais conceituadas e respeitadas manifestações artísticas humanas, isso desde a tragédia e comédia na Grécia. Entretanto, cada época foi trazendo novas formas, novas técnicas e a dramaturgia teatral , como toda boa forma de expressão, foi se reinventando, se moldando, se adaptando e trazendo novas formas de divertir e emocionar a platéia, inclusive através do diálogo com outras formas de expressão como música, cinema e dança.

Na premissa do diálogo, da referência, do encontro é que a peça Quatro VS Cadáver se situa muitíssimo bem bebendo da fonte inspiradora do seu irmão caçula, o cinema. A peça é um conjunto de pequenos atos, ou pequenas outras peças, contando histórias distintas cujo único ponto em comum é um cadáver em cada uma delas... aparentemente é isso, aparentemente.

Com um ritmo bem fluente em palco os atores se revezam ora entre um humor refinado, contido, de sacadas ora com um humor mais escrachado, escatológico até, mas tudo dentro do necessário para desenvolver as complexas tramas diante do espectador. A bem da verdade as tramas não são tão complexas assim, mas a maneira cômica com que as situações são conduzidas e os personagens são apresentados e confrontados uns com os outros é que acaba causando essa complexidade cômica em cena. O que era para ser sempre uma trama girando em torno de um cadáver acaba se tornando uma verdadeira farra de caras e caretas, trejeitos e reviravoltas inexplicáveis no palco com gente assumindo romances improváveis e confessando pecados inconfessáveis.

O que pareceria uma loucura é na verdade uma grande homenagem ao cinema noir e suas tramas complexas, assassinatos planejados , detetives desconfiados, mulheres fatais, empregadas misteriosas, casos amorosos, dinheiro em jogo e muita, muita desconfiança mútua.
Para homenagear ainda mais essa paixão pelo cinema, entre um ato e outro da peça o espectador vê sob pouca luz o cenário ser arrumado, reorganizado para o ato seguinte, enquanto ao fundo avança uma projeção de vários filmes e trechos de obras clássicas de autores cinematográficos do noir. É tão interessante que o espectador nem nota o tempo passar e a transição acaba se tornando parte do ato todo.

Saulo Sisnando, autor, ator e diretor da peça aproveita bem a oportunidade e as características de nosso tempo para mesclar a linguagem teatral com a cinematográfica, fazendo um teatro ágil, divertido e conectado com o a pluralidade marcante de nossa época onde uma expressão reforça outra, onde uma linguagem fala com outras, se misturam e exatamente nesse processo de encontro se renovam.

Com referências não só do cinema noir como também da literatura noir e dos quadrinhos como Dick Tracy, Sisnando nos brinda com um peça que faz o teatro dialogar consigo mesmo e com outras mídias, utilizando muitíssimo bem seu recurso de quatro textos de quatro autores diferentes amarrados ao final por um último ato que é pura metalinguagem. Não poderia ser diferente no final.

Premiado pela FUNARTE o espetáculo conta também com textos de Edyr Augusto Proença, Carlos Correia Santos e Rodrigo Barata, cada um deles escrevendo uma das tramas que se seguem no palco.

Por fim, nossa equipe gostaria muitíssimo de agradecer
ao convite feito a nós para cobrir e prestigiar a apresentação, ao material cedido para divulgação no Ponto Zero e em especial a parceria que nos proporcionou presentear dois leitores com ingressos para prestigiar também esta
excelente peça toda escrita e interpretada pelo melhor do teatro paraense. Muito obrigado e parabéns a todos da equipe da peça pelo trabalho de primeiríssima mão.

FICHA TÉCNICA:
Direção Geral: Saulo Sisnando

Textos:
“Quem matou minha personagem?”, de Carlos Correia Santos
“O caso do Muiraquitã Verde”, de Edyr Augusto Proença
“O estranho”, de Rodrigo Barata
“A Querida Irmã”, de Saulo Sisnando

Elenco:
Adelaide Teixeira
Gisele Guedes
Luíza Braga
Marcelo Sousa
Saulo Sisnando
Flávio Ramos – como “o cadáver”
Iluminação:
Sonia Lopes
Sonoplastia:
Leonardo Cardos

{Quatro Vs Cadáver}



sábado, 28 de agosto de 2010

Quatro Versus Cadáver: comédia paraense volta ao palco após temporada no Maranhão


Vencedora do prêmio Myriam Muniz, da Funarte, “Quatro Versus Cadáver” retorna ao teatro do CCBEU neste fim de semana

Após bem sucedidas apresentações na cidade de São Luís, volta aos palcos de Belém o espetáculo “Quatro Versus Cadáver”. Com textos de Carlos Correia Santos, Edyr Augusto Proença, Rodrigo Barata e Saulo Sisnando, a peça será apresentada nesta sexta, sábado e domingo (27, 28 e 29), sempre às 19h, no Teatro do CCBEU. Criador do projeto, Saulo Sisnando também assina a direção da montagem que venceu o prêmio Myriam Muniz, da Funarte, e ganhou a chance de circular por outras capitais brasileiras. Nos dias 14 e 15 de setembro, a produção segue para Macapá.

A inusitada comédia, que reúne em um só espetáculo as estéticas e linguagens de quatro dos mais atuantes dramaturgos da atual cena teatral nortista, não apenas conquistou bom espaço na mídia maranhense como arrancou gargalhadas e aplausos do público de São Luís. A vitória no concorrido edital da Funarte está permitindo a divulgação, em praças distintas, de um autêntico mosaico do que a dramaturgia paraense contemporânea está produzindo.
Cada um – “Quatro Versus Cadáver” alinhava quatro divertidas histórias que seguem um mesmo mote, a clássica circunstância das tramas de mistério: um personagem assassinado e um grupo de suspeitos. Quem matou? Por que matou? Como matou?
Para desenvolver seu enredo, Carlos Correia Santos escolheu a metalinguagem. A personagem de uma das atrizes some enigmaticamente. Ela não consegue mais encontrá-la. A conclusão é só uma: algum de seus colegas de cena seqüestrou sua personagem para tentar matá-la. Mas quem? Por que? Como? A platéia diverte-se com o embate dos egos dos atores e não percebe que a solução para esse “crime cênico” pode estar bem mais perto do que suspeitam.
Norteada por um humor ácido e provocativo, a trama de Edyr Augusto segue os moldes dos clássicos do cinema noir. Um intrigante casal parece estar relacionado à estranha morte de um pesquisador envolvido no desaparecimento de um Muiraquitã. Tudo, no entanto, sofre uma grande reviravolta e a platéia é quem acaba morrendo de rir.
Rodrigo Barata aposta numa narrativa regada a escandalosos e hilários desdobramentos. Um jovem milionário é assassinado por seus irmãos gêmeos adotivos. A sinistra e tosca empregada da família surge para fazer revelações bombásticas e tornar tudo ainda mais histriônico.
Por fim, inspirada na estética das HQs, a história de Saulo Sisnando costura todas as demais, misturando seus elementos e pontuando de forma criativa as características dos demais autores do espetáculo.


Serviço: “Quatro Versus Cadáver” com textos de Saulo Sisnando, Carlos Correia Santos, Edyr Augusto Proença e Rodrigo Barata. Direção: Saulo Sisnando. Dias 27, 28 e 29, às 19h, no Teatro do CCBEU. Ingressos: R$ 20,00 com meia entrada a R$ 10,00. Espetáculo vencedor do prêmio Myriam Muniz da Funarte.

FICHA TÉCNICA:


Direção Geral:
Saulo Sisnando
Textos:
“Quem matou minha personagem?”, de Carlos Correia Santos
“O caso do Muiraquitã Verde”, de Edyr Augusto Proença
“O estranho”, de Rodrigo Barata
“A Querida Irmã”, de Saulo Sisnando
Elenco:
Adelaide Teixeira
Gisele Guedes
Luíza Braga
Marcelo Sousa
Saulo Sisnando
Flávio Ramos – como “o cadáver”
Iluminação:
Sonia Lopes
Sonoplastia:
Leonardo Cardoso
Fotos de Divulgação e Cartaz:
Alan Soares e Shamara Fragoso
Fotos do Espetáculo:
Philippe Medeiros

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Boa noite, Cinderela.









Uma Belém sombria, colorida por fortes e fechados tons de azul e vermelho. Uma princesa solitária trancafiada numa torre alta. Um bairro povoado por prostituas, travestis e marinheiros. Uma maldição que atinge uma jovem há dezesseis anos. Uma rua, na qual as cartomantes são bruxas e os assassinatos são cometidos com brilhantes punhais de aço. Uma rosa com o poder de nos fazer dormir para sempre e um coração que, trancafiado numa caixa, nos garantirá beleza eterna.




Em junho de 2010, a produtora do Cuíra convidou-me para assinar a dramaturgia do novo espetáculo do grupo – um belo trabalho desenvolvido com os moradores dos arrabaldes do teatro. Com uma sincera e admirável confiança, deu-me livre-arbítrio para escrever a dramaturgia, exigindo apenas que, no palco, estivessem histórias do bairro da Campina.




Por um mês, mergulhei no universo do local, ouvi narrações, fotografei, pesquisei e acompanhei diariamente a oficina ministrada pela diretora Marluce Oliveira.




As histórias eram muitas, de diferentes tempos, com os mais distintos protagonistas. Eram tramas folhetinescas, recheadas de riquezas, belas mulheres, amores proibidos, mortes... Muitas mortes! Contavam-me de madames que perdiam posses por causa de amores bandidos, paixões eternas de apenas uma noite e mulheres poderosas que desejavam ser resgatadas por belos príncipes. Destinos tão mordazes, que matariam de inveja as mocinhas das novelas da Tevê.




Tentando unificar tantas e tão romanescas narrativas numa única dramaturgia, mergulhei no universo dos contos de fada de Perrault, Grimm e Hans Christian Andersen e inspirei-me abertamente no espetáculo “7 – o Musical” de Charles Möeller e Claudio Botelho, que assisti, no Rio de Janeiro, em 2008.




Sem jamais deixar de lado as histórias narradas ao longo de dois meses. Dentre tantas, o conto da prostituta maranhense assassinada por uma rival, a história do rapaz virgem morto no Rola’s Drinks no dia em que passou no vestibular e a trama verídica de uma das prostitutas mais ricas da campina que, traída pelo amante, perdeu todos os bens, passando a viver como mendiga. Tudo alinhavado sob a égide do conto da Bela Adormecida. E não seria irônico uma bela adormecida na Riachuelo? Ou melhor... Já não seria esta rua recheada por estas belas mulheres que dormem?




Com este espetáculo, quis escrever um conto de fadas real... Ou a realidade em forma de conto de fadas. Desejei retratar a campina de uma maneira lírica, lúdica e carnavalesca. “Boa noite, Cinderela” é, como todo conto de fadas, um arquétipo de nossas idealizações e um microssomo da realidade em que vivemos. Um convite a atravessar nossa penosa existência de forma menos dolorosa. É, finalmente, o óbolo que nos fará descer de nossas altas torres e enxergar este bairro e estas pessoas, que são luxuosas, mas sujas. Bonitas e feias. Majestosas e decadentes. Perigosas e adoráveis. Contraditórias... afinal antes de serem da vida, são reais e humanas como todos nós.




Saulo Sisnando
Agosto/2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O incrível segredo da Mulher-Macaco




Em celebração ao aniversário do cineasta Alfred Hitchock,
que em 13 de agosto completaria 101 anos,
o espetáculo “O incrível segredo da Mulher-macaco”,
faz pré estreia nacional em Belém/PA, no Cine-Teatro CCBEU,
nesta sexta-feira 13.

Uma heroína preocupada com os preparativos de seu casamento. Um noivo milionário. Uma cruel criada. Um desconhecido em busca de abrigo. Uma matriarca paralítica. Uma atriz de cinema de identidade falsa. Seis personagens. Seis Vidas. Seis segredos. Vários crimes! Essa é a tônica da comédia-terror.

Em meados de 2009, os atores Wendell Bendelack (“Sexo Frágil” e “Malhação”) e Rodrigo Fagundes (“Zorra Total”), desafiaram o dramaturgo e diretor teatral paraense, Saulo Sisnando, a escrever uma peça cômica, sombria, que seguisse os moldes das películas clássicas de horror hollywoodianas.


Saulo aceitou o desafio macabro e os presenteou com uma história desmiolada, sangrenta e absurda, recheada de revelações bombásticas. E muitas piadas!


Mergulhando no universo do impecável romance inglês, O Morro dos Ventos Uivantes, Saulo Sisnando transportou a trama da autora Emily Brontë das charnecas bucólicas de Yorkshire, para a Meca do cinema – Hollywood –, onde as loiras são geladas e os galãs têm caráter duvidoso.


Utilizando o conhecimento cinematográfico, que adquiriu por anos como crítico de cinema e a experiência de já ter dirigido peças do gênero, como “Quatro versus Cadáver”, vencedora do prêmio Myriam Muniz - Funarte, Saulo Sisnando recheou a trama de referências, que vão alem do livro de Emily Brontë, mas homenageiam os filmes hollywoodianos, os personagens célebres e as celebridades reais.

No palco, Wendell e Rodrigo vivem diversos personagens. Assassinos, mocinhas, monstros e detetives. Todos tem seus segredos lúgubres e todos são movidos por uma grande paixão: o cinema.
A trama e gira em torno de uma confusa herança e começa quando um desconhecido, Sr. Loockwood, arrisca-se a pedir abrigo numa mansão mal assombrada. Como toda boa história de terror, o dinheiro sempre justifica qualquer crime. Nesta aqui, todos estão interessados num glamoroso estúdio de cinema... E todos, sem exceção, estão dispostos a matar, fingir, dissimular, morrer... E até ressuscitar, se for preciso!
Somando-se a tudo isso, há ainda um segredo, que ocupa o andar de cima da mansão. Um mistério milenar... Que se manteve trancado a sete chaves... Até hoje. Quando, literalmente, rompendo grades, esse segredo escapou e escondeu-se pelos aposentos da casa.
“O incrível segredo da Mulher-Macaco” é uma peça de terror. É uma comédia para bolar de rir. É uma celebração à sétima arte. É uma homenagem aos livros de Agatha Christie e aos filmes de Alfred Hitchcock. É uma oportunidade única de unir o teatro do Rio de Janeiro ao de Belém em um só espetáculo. É uma trama, que prende a atenção do início ao fim, quando se descobre que o assassino decerto não é o mordomo. Mas também não é o amante. Nem a Bette Davis! Uma história onde tudo é tão possível que o autor de crime tão brutal pode ter sido a mocinha... Ou o galã... Ou eu... Ou você... Ou ninguém... Quem sabe?

FICHA TÉCNICA
Texto e Direção:
Saulo Sisnando
Diretora Assistente e Dir. de Movimento: Duda Maia
Iluminação: Paulo Roberto Moreira
Iluminação (em Belém): Sônia Lopes
Criação de Trilha e Efeitos Sonoros: Rodrigo Fagundes Gravação e Mixagem: Christiano Pedreira
Figurino: Wendell Bendelack e Lúcia Obara
Adereços: Rodrigo Fagundes, Wendell Bendelack e Edilson Risoleta
Concepção de Cenário: Rodrigo Fagundes, Wendell Bendelack e Saulo Sisnando
Cenotécnico: Renato Índio
Programação Visual: Milton Menezes
Fotografia: Fernando Filho
Consultoria Cultural: Paula Salles
Elaboração de Projeto: Paula Salles e Gabriela Mendonça
Direção de Produção e Produção Executiva: Renato Bavier
Realização: Rodrigo Fagundes, Wendell Bendelack e Triple – Idéias e Soluções Culturais.
Produção Local: Saulo Sisnando
Assessoria de Imprensa Local: Carlos Correia Santos
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SERVIÇO
“O Incrível Segredo da Mulher-Macaco”
Local:
Cine-Teatro do CCBEU
(Padre Eutíquio, 1309)
Dias 13, 14 e 15 de agosto/2010
Horário:
às 21h00
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 80 minutos
Ingressos: R$40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia)
Informações: (91) 81773344

Saulo Sisnando: sucesso no teatro do Rio e Belém


Matéria publicada no jornal “O Diário do Pará”,


na Quinta-feira, 05/08/2010. (por Marcelo Gabbay)




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Belém receberá no próximo dia 13 de agosto, a peça “O Incrível Segredo da Mulher Macaco”, que entrará em cartaz no teatro do CCBEU, com texto e direção de Saulo Sisnando.
A peça tem em seu elenco Wendell Bendelack, Rodrigo Fagindes e Renato Bavier como a Mulher Macaco. Ao mesmo tempo, “Quatro Versus Cadáver” e “Boa Noite, Cinderela”, também estarão em cena. E como se não bastasse, “Útero: fragmentos românticos da vida feminina”,é um dos espetáculos selecionados pelo Festival Territórios de Teatro, que acontece em Belém na mesma época.


A peçaEsse é o ano do jovem escritor que estará com quatro espetáculos em cartaz ao mesmo tempo. Um ritmo nada ruim para quem ainda dá expediente como advogado.
“O Incrível Segredo da Mulher Macaco” veio por encomenda da Companhia Os Surtados, por meio dos atores Wendell Bendelack e Rodrigo Fagundes e estreou em 24 de julho, no Teatro Dom Pedro de Petrópolis, no Rio de Janeiro.
Entre encontros e conversas no Rio de Janeiro, a dupla de atores que estourou nos teatros cariocas com “O Surto” – a peça de esquetes que originou o personagem Patrick, do programa Zorra Total – decidiu encarar uma parceria com Saulo para uma nova montagem. Eles tinham acabado de encenar a comédia “Mamãe Não Pode Saber”, com direção de João Falcão, e agora queriam não só o texto, mas a orientação de Saulo como diretor da nova peça.
Baseada em referências do universo de filmes de terror hollywoodianos, “O Incrível Segredo da Mulher Macaco” tem um texto ágil e muito bem amarrado. O entrosamento apurado de Wendell e Rodrigo consegue a proeza de segurar a peteca da narrativa repleta de citações a Alfred Hitchcock, Edgar Allan Poe, e Agatha Christie. Os dois atores se revezam em vários papéis, que trocam perucas, figurinos, adereços e entonações de voz tão variados que dá pra imaginar o corre-corre que deve rolar por detrás do palco.
A história se desenvolve em torno de um assassinato, uma trama complexa que envolve inveja, traição, decadência, fama, dinheiro, e uma mulher macaco. Segredos são revelados e desmentidos o tempo todo. Só um verdadeiro trabalho de tecelagem para costurar a trama cômica da peça. Tudo na sua medida, sem gorduras desnecessárias. As risadas fáceis que se arrancam com a desconcentração dos atores, que riem de si mesmos e fazem piadas internas não é a jogada aqui. O público precisa acompanhar a história. A sequência frenética e absurda de surpresas e guinadas na trama é o que faz da Mulher Macaco uma comédia completa.
O final inesperado é um dos grandes momentos. O próprio texto de Saulo cuida de fazer sua auto-chacota. “O Incrível Segredo da Mulher Macaco” cumpre uma sequência no repertório desse autor e diretor de 32 anos que vem, com as próprias mãos, agitando o cenário teatral de Belém e começando a ganhar chão pelo Brasil.


O diretor
Saulo Sisnando se formou na Escola de Teatro e Dança da UFPa em 2002, mas antes disso já produzia textos de ficção. Foi premiado como contista pela UFPA em 2002 e 2003, publicou a história de Maria Manuela pelo blog de seu Semanário Sexual, e em 2005 lançou seu primeiro livro, o “Puzzle: tenha fôlego para chegar ao fim!” (Editora Novo Século). O acúmulo de textos e a facilidade em escrever histórias impulsionaram uma sequência de produções em teatro, que vêm desde 2007 com a estréia de “Útero: fragmentos românticos da vida feminina”.
Trabalhando com não atores, Saulo assumiu o posto de diretor e realizador de seus textos. De lá pra cá, já foram mais quatro espetáculos com sua assinatura: “popPORN: sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos”; “Cartas Para Ninguém”; “Trash: o outro lado do popPORN”; e “Quatro Versus Cadáver”, esse escrito em parceria com Carlos Correia Santos, Edyr Proença, e Rodrigo Barata.
Ao mesmo tempo, acaba de se encerrar, no Rio de Janeiro, uma temporada de dois meses de mais texto seu, “Os Neuróticos: de perto ninguêm é normal”, no Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea, um dos palcos mais populares da cidade. No ano passado, “popPORN” foi encenado na Lapa, no teatro Ninho das Artes, com direção de Luciana Malcher e mais dois atores paraenses no elenco, Michele Campos e Roy Peres.


Serviço:
A Mulher Macaco fica em cartaz de 13 a 15 de agosto sempre às 21 horas, no teatro do CCBEU, na Travessa Padre Eutíquio, 1309.
Programação imperdível!
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Miau #3


— Devo tomar um ou dois comprimidos?
— Depende. O que você está sentindo?
— Nada!
— Ah!, então toma dois.

domingo, 27 de junho de 2010

Miau #2


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Chefe: não foi isso que eu mandei você fazer. Será Possível? Eu disse para você falar sobre trans-fe-rên-cia. Não era para tocar no assunto do-cu-men-ta-ção. Vamos... Refaça!
Empregado: Senhor, por favor, leia até o fim.
Chefe lê. Pára. Devolve o papel ao empregado.
Chefe: Está ótimo! Pode sair!
Empregado: Quer que eu corrija alguma coisa?
Explosão.
Chefe: Não! Está ótimo! Já disse... Será possível que você nunca faz o que eu mando!?
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Saulo Sisnando definitivamente escrevendo como Saulo Sisnando

miau #1


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Ele 1 liga a webcam.
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Ele 1: odeio essas lâmpadas fluorescentes. Elas me deixam feio.
Ele 2: é mesmo. Você parece um E.T.
Ele 1: nossa! Difícil engolir esse seu comentário.
Ele 2: bebe água, filho. Estou certo de que você já engoliu coisa pior.
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Saulo Sisnando definitivamente escrevendo como Saulo Sisnando

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Carta ao Matador


Querido Waldisney,
Tudo bem? Por aqui as coisas estão ótimas...
Claro que não estou me referindo a sua esposa, pois, desde que você foi preso, ela se prostrou numa cama e não levanta para nada. Mas seus filhos estão muito bem. O Marcates Ney e o Leno estão tomando conta do açougue. Os negócios vão de vento em popa. O Neco, por outro lado, ficou de recuperação em quase todas as disciplinas, mas tirou 10 no projeto da feira de ciências. Ele dissecou um cachorro e explicou minuciosamente o sistema urinário dos mamíferos. Sentimos saudade do Baleia, nosso estimado Pastor Alemão, mas tudo em prol da educação das crianças.
A louca Ritinha não deu mais noticias. Desapareceu! Mas um ti-ti-ti ronda a casa de cômodos. Dizem que foi vista na garupa de uma motoca, com roupa de plástico e Ray-Ban na cara, assaltando caminhoneiros. Mamãe acha que é fofoca, mas eu acho bastante provável.
Por falar em Mamãe, ela está muito bem. Desde que teve aquele AVC (um sufoco para todos nós!) os clientes aumentaram. Ela ainda tem muita dificuldade para abrir as pernas, mas a sua boca ganhou uma maciez que esta encantando a freguesia.
Quanto a mim, estou fabulosa. Estou gradativamente me livrando dos entorpecentes. Não cedo mais à cocaína, nem aplico nada. Mas nos dias ímpares, para evitar aquela terrível convulsão, cheiro gás de geladeira.
Saudades, querido irmão. Ainda acreditamos na sua inocência. Mas se você realmente tiver matado a Lisandra. Tudo bem!, ela não era mesmo boa bisca.
Aguardo sua resposta,
Dionne.


Saulo Sisnando
escrevendo como Saulo Sisnando