segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A culpa é do signo


"Num deserto de almas também desertas,
uma alma especial reconhece de imediato a outra"
Caio Fernando Abreu

"Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada"
Angela Rô Rô e Ana Terra

Não posso falar nada acerca dos homens. Deles, não entendo patavinas! Mas sobre nós, as mulheres, possuo vasto conhecimento e, por isso, sei que temos a mania terrível de inventar desculpas.
Comemos potes de sorvete porque estamos um pouco deprimidas (afinal, nós odiamos sorvete). Compramos sapatos porque detestamos nosso chefe. E gastamos uma fortuna naquele vestido (que, aliás, até se parecia com aquele outro), não porque somos malucas por uma liquidação fajuta, mas porque fomos convidadas para uma festa na qual o nosso ex também foi convidado e temos de aparecer por cima da carne seca.
Nós sempre inventamos pretextos ridículos.
E, de todos, o mais recorrente é a desculpa astrológica. Sim, a culpa é do signo! A culpada é a minha mãe que, doida de pedra, decidiu me ter no final de janeiro: numa combinação absurda de aquário, com ascendente em escorpião e a lua em libra.
Por causa do aquário, me apaixonei perdidamente por um homem, que conheci pelo Orkut e morava noutro estado. Por causa do ascendente em escorpião, tive um caso sórdido com um homem casado (eu não sabia, tá?!). E, motivada pelo desequilíbrio de uma lua em libra, eu sempre me apaixono perdidamente por rapazes, que nem conheço direito (lembram do trágico romance com o dançarino?)
Adoro estas paixões doidas por desconhecidos. Mês passado, por exemplo, me enamorei por um homem, que encontrei na fila do ponto do meu trabalho.
O meu novo príncipe é um rapaz moreno e bonito, que me jogou olhares furtivos quando eu estava na fila do ponto eletrônico.
Depois desse primeiro encontro, comecei a bolar situações malucas para esbarrar com ele nos corredores da repartição. Descobri que ele trabalha nalguma sala perto do banheiro, perto da escada, perto do restaurante e perto do prédio-anexo. Mas ainda não descobri exatamente onde... E já o encontrei duas vezes na xérox (não renego mais este serviço aos estagiários. Não! Eu mesma faço).
E pasmem!, numa sexta-feira, ele até me deu bom dia. Eu estava bem atrás dele… A menos de um braço de distância… Na fila do ponto eletrônico.
Um “bom dia” meio tímido, com cheiro de pasta de dente.
Sei não, mas, lá no fundo, achei que rolava um sentimento de volta, pois ele me encarou bem nos olhos. Todavia eu abaixei a vista. Primeiramente porque ele estava muito perto; segundamente porque queria saber como eram seus dentes. Engraçado como eu sempre me apaixono por homens com belos dentes... Os dele estão presos num aparelho! Enfim, não era um belo sorriso, mas um sorriso bonito em potencial.
Perdi o fim de semana obcecada. Congelada naquela imagem do rapaz bonito, parado no meio do corredor, e passei o domingo bolando planos para um encontro-casual-arranjado na semana seguinte.
Pensei em fazer um bilhetinho com meu nome e número de telefone. Quando cruzasse com ele, deixaria cair... Assim... Displicentemente... Como se fosse sem querer!
Mas depois desisti: seria arriscado demais! E se aquele papel caísse nas mãos de algum segurança, e eu virasse motivo de piada na sala da “TIGRE – Segurança Ltda.”?
Não fiz o bilhete!
E, pior!, não encontrei mais o belo rapaz, de dentes metálicos, por quase uma semana. Na minha cabecinha pipocavam pequenas tragédias: será que foi transferido? Exonerado? Será que pediu para mudar de setor? Será que foi para um local onde não fosse perseguindo por uma mulher encalhada e doida?
Penso sobre isso... Penso sobre minha combinação astral maluca e estas minhas paixões destrambelhadas e, no final, fico até feliz.
Essas coisas, que povoam minha existência, dão a impressão de que minha vida é um pouquinho mais divertida do que a vida das pessoas da repartição. Afinal os outros colegas de trabalho são seres estranhos que percorrem, sisudos, aqueles corredores apertados. Numa felicidade Made in Prozac.
Às vezes tenho a nítida certeza de que transformo minha história numa novela das oito. E que adoro isso! Adoro ser assim: do tipo doidinha. Porque, no final, eu me divirto. Eu quero algo a mais do que esta vidinha-classe-média-e-tailler-cheio-de-vincos-de-ferro-quente.
Quero desculpas para me apaixonar toda semana, quero encontrar aquele rapaz no ponto eletrônico, quero me apaixonar por um ator destrambelhado de alguma peça maluca, quero amar a distância e mudar de país. Tudo isto, porque quero viver! Quero pular da cadeira, toda vez que o celular apita avisando uma nova mensagem... Será que o rapaz do corredor descobriu meu número? Será que o bailarino decidiu me amar de uma vez por todas?
Quero tentar.
Posso mesmo nunca encontrar o meu grande amor. Pode ser que ele siga a letra de Ângela Rô Rô e, não apenas chegue fora da hora, como chegue cedo demais e eu não esteja preparada. Ou, pior: e se ele chegar tarde demais? Sei lá... Um belo médico me atendendo no leito de morte.
É um risco que se corre.
Mas não posso reclamar de ter passado um dia sequer, sem ter sonhado receber flores do cara bonito do elevador, um bilhete apaixonado do rapaz de cintura estreita, que malha na minha academia, ou bombons deste bendito cara do ponto eletrônico.
Mas não se preocupem comigo, no dia que o homem da minha vida aparecer, o lugar dele estará aqui: no meu coração. No lado nunca ocupado por qualquer um destes que povoam minhas paixonites agudas e meus sonhos eróticos.
Por isso, até o meu amor aparecer, eu irei toda arrumada para a repartição. Torcendo para encontrar o moreno bonito e sonhando que nossos dedos se toquem no ponto eletrônico e ele me peça em casamento na fila da Xerox.
Amanhã… Quem sabe?
Saulo Sisnando escrevendo como Maria Eduarda

3 comentários:

  1. minha felicidade made in prozac fica maior ainda quando te leio e percebo o quanto temos semelhanças no raci´cínio ficcional...abrçs aquarianos, rodrigo b.

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  2. Incrível... eu não sei se me assusto com as semelhanças entre mim e este seu personagem, ou se a chamo pra sair e ir atras de um "destino" sarado e bonitão comigo! Maravilha! Inclusive, confesso também que tive uma paixonite por ti, Saulo, depois de te ver em uma peça... My bad! Típica sagitariana...! haha

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  3. Obrigado. Dizer que teve uma paixonite por mim após uma peça ou após ler um texto meu é, sem dúvida, o melhor elogio que posso ter. Sempre digo que não faço arte para ganhar premio... faço arte para que os outros queiram beijar.
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