quarta-feira, 17 de abril de 2013

Cenas de um casamento gay: VAMPIROS




CLÁUDIO: O que você está assistindo?
DIEGO: “The Vampire Diaries”.
CLÁUDIO: Ah, tá!
DIEGO: Ah, tá, o quê?
CLÁUDIO: Ué? Não posso mais dizer “Ah, tá?”
DIEGO: Pode. Claro que pode.
CLÁUDIO: Ah, tá... O seriado daquela garçonete feia que lê mentes?
DIEGO(revoltado) Primeiro, a Sookie é linda! Segundo, você está confundindo “The Vampire Diaries” com “True Blood”. Nem passam no mesmo canal.
CLÁUDIO: Tanto faz, é tudo de vampiro.
DIEGO: Sacrilégio. “Diários de um vampiro” é baseado nos livros da L. J. Smith e “True Blood” é dá Charlaine Harris... Não tem nada a ver um com o outro!
CLÁUDIO: Sei... Charlaine é aquela escritora gorda e feia?
(Diego revira os olhos)
CLÁUDIO: Mó cara de sapatão! (pausa. De repente, um insight) Por isso ela cria esses vampiros viadinhos: ela não curte homens, é isso!
DIEGO: Bill é muito macho, meu querido.
CLÁUDIO: Macho? Macho? Macho não brilha no sol como purpurina. Só o que me faltava. Daqui pro final da série, você ainda vai vê-lo dando pro lobisomem. Jacob, né? Eu aposto contigo.
DIEGO: Porra! Você tá misturando “The Vampire Diaries” com “Crepúsculo”... “Crepúsculo” é da Stephanie Meyer.
CLÁUDIO: é mesmo! Vaca!
DIEGO: Vaca!
CLÁUDIO: Cagou a mitologia dos vampiros. Mas, de todas, é a mais gata. Eu comia ela!
DIEGO: Hummm. Só o que me faltava, a bichona virar bofe e ainda comer a escritora com cara de mórmon.
CLÁUDIO:  eu comeria ela sem dó, vap-vap-vap, deixaria assada a periquita dela... Só para ela aprender a não fuder mais com a mitologia dos vampiros.
DIEGO: Tá, Cláudio, agora cala a boca, que a Katherine está se passando por Elena. Alisou o cabelo e tudo... Daqui a pouco vai ter chacina no seriado.
CLÁUDIO: Sabe o que eu acho?
DIEGO: Não sei se quero saber...
CLÁUDIO: Acho que a Katherine e a Elena são a mesma pessoa. Isso deve ser crise de identidade. No final vamos descobrir que são a mesma pessoa... Tipo “Clube da Luta”, saca?
DIEGO: cala a boca.
CLÁUDIO: não está vendo? Mó cara de doida essa pilantra.
(Diego não responde)
CLÁUDIO: Vampiros legais eram os da Anne Rice.
DIEGO:  Anne quem?
CLÁUDIO: Anne Rice. Saudade do Lestat, Louis, Armand. Aquilo sim era viadagem de alto nível.
DIEGO: vamos mudar de assunto, porque daqui a pouco vais querer meter o “Bento” do André Vianco... Ai, eu me jogo pela janela.
(alguns minutos calados)
CLÁUDIO: Muito gato esse irmão da Elena.
DIEGO: O Jeremy? É mesmo! Tão gato que não sei se eu queria ser ele ou ter ele ao meu lado na cama.
CLÁUDIO: eu preferia ter ele ao meu lado na cama
DIEGO: Que grosso!
CLÁUDIO: É porque olhando bem, eu não preciso ser ele... Eu já tenho alguns traços: cabelo castanho, pele alva, olhos negros penetrantes.
(Diego ri incontrolavelmente)
CLÁUDIO: você está acabando com a minha autoestima
DIEGO: você não acha que sua autoestima está alta demais, não?
CLÁUDIO: vou dormir?
DIEGO: com o Jeremy?
CLÁUDIO: Não! Com você... Meu vampirinho sexy. Meu Bento Carneiro, vampiro brasileiro.
DIEGO: own.  (pausa) Amor?
CLÁUDIO: oi?

DIEGO: Você comeria a Anne Rice também?

domingo, 7 de abril de 2013

Para os infinitos




Para o Pedro,
na certeza de que sempre terá o abraço de seu pai.

Então tudo passa, e o Pedro - o filho da sua melhor amiga - nasce. E você descobre que coisas grandiosas acontecem diariamente no mundo. E coisas lindas e minúsculas também.
E em quase dois anos, alguns amigos vão fazer doutorado no Rio de Janeiro, e outros voltam de Macapá, e outros engravidam, e uns abortam, e muitos parem. E um vem passar a Páscoa com a mãe, e duas querem que você escreva peças de teatro para elas, e aquele emagrece para ficar com barriga-tanquinho, e qualquer um se muda para a Austrália para esquecer um amor (sem conseguir).
E no meio de tanta vida você se vê vivendo muita coisa.
Nesse tempo em que estão separados, você foi à macumba e descobriu que era filha de Oxalá com Oxum, e se viu devota de Santa Teresinha, e aprendeu a dançar – para que você não precisasse mais dos passos alheios, mas tivesse a sua própria coreografia.
E começou a psicoterapia: fez constelação familiar, tratamento bioenergético, regressão a vidas passada e acupuntura. Ufa! E nessa empolgação, descobriu que não quer passar o resto da vida carimbando papéis no seu emprego público, não!, sua sina é ser psicanalista... Porque Freud é o cara! E agora quer ir pro Rio de Janeiro estudá-lo profundamente e montar um consultório ajeitadinho, com uma estátua do pensador em cima da mesa, vários livros escuros na estante e usar uns óculos miúdos daquele tipo bem intelectual.
Se não for possível, quer ficar por aqui e organizar rascunhos antigos e voltar a escrever histórias de terror ou romances açucarados sobre moças pobres que se apaixonam por rapazes ricos. E deseja publicar seus poemas, e crônicas, e as receitas que sua avó deixou naquele livrão antigo, que você encontrou no cofre do seu pai.
E por falar em pai, você descobriu que muito da sua solidão está ligada a ele – contrariando todos os que dizem que a culpa é sempre da mãe –  pois ele nunca te deu um abraço apertado. E você, com a ajuda da terapia, se prometeu dar um abraço nele. Mas ainda não sabe quando... Nem como explicá-lo tal repente.
Porém desde quando o amor precisa de explicação?
E sendo sozinha, você leu todos os livros do Harry Potter, virou orquidófila, aprendeu a andar de patins e a baixar filmes em Torrent.
E saiu algumas vezes ao sábado e beijou alguns gatinhos (ou vários) e se deu ao direito de tomar uns pileques mesmo sabendo que, segundo seu médico ortomolecular, bebida alcoólica retarda o emagrecimento. Mas, ah!, para que a pressa?
E então você percebe que, tentando esquecê-lo, você se faz feliz. E descobre que, embora você queira muito ter alguém, você consegue sobreviver muito bem sozinha. Porque às vezes a melhor parte do amor... é esquecê-lo!
Sim! Ele era lindo... E pode até ter sido perfeito. Mas foi perfeito por um tempo determinado. Mas pessoas como você não aceitam amores com prazo de validade.

Pois você quer o infinito,
já que o infinito você é.
Mesmo sozinha.