domingo, 18 de janeiro de 2015

SOBRE O FIM



Para minha irmã,
e para Michele.

De todas as minhas manias, nenhuma me define mais do que aquela de abandonar livros no meio... De não ver os finais dos filmes... De não deixar o CD rodar até o final da faixa.
A imagem de um círculo incompleto não me angustia. Não me tortura não saber quem matou a mocinha ou não ver o vilão preso.
O que me corrói, ao reverso, é chegar ao fim. É virar a última página. É ver a bolha de sabão estourar. É contemplar os créditos subindo ordenadamente. O que me mata é levantar no final da sessão e deixar a cadeira vazia, é abandonar o saco de pipoca seco, é tomar o refrigerante até ouvir aquele som irritante da última gota.
É, meu grande amigo, me dói deixar que as coisas morram.
Prefiro pensá-las sempre pendentes. Ausentes, mas possíveis! Opto por parar frases em vírgulas, nunca em pontos. Pois sou sonhador e gosto continuar vivendo a espera de que tu possas terminar minhas sentenças. E o 'hoje' não seja o fim... Nem começo, mas um intermezzo. O meio de dois atos.
Por isso não me mudo... Não viajo...  Por isso sou estático... Sou rocha ignota! Para que sempre me encontres, vivendo calmo entre brisas cálidas a correr por prédios baixos, numa forma de facilitar o destino... Quando quiseres me reencontrar, estarei aqui!
Não importa onde estás agora, meu menino. Em Flóridas floridas pescando ouriços do mar ou dentro de uma nave interestelar, cruzando o tempo-espaço, em uma direção que nem meus sonhos mais altos poderiam supor. Não interessa se teus braços abraçam outros braços ou se teu sorriso ilumina outras vidas.
Pois nunca sou final. Apenas meio. E torço para que um dia retornes desta longínqua Abu Dhabi... Ou que Yemanjá, rainha de todos os santos, me ouça e te resgate de teu pequeno aquário para te devolver a mim. Para que meu coração seja não só sístole, mas diástole! E eu possa colocar, enfim, a última peça de um quebra-cabeça cósmico, que nos conecta entre as estrelas...
Para que as bolhas estourem... 
Os mortos descansem... 
E meu amor deixe de ser pó e volte a ser bruma... 
Para que todos os meus  livros possam ter um final!

Em minha estante, grande amor, há centenas de heróis sem um fim, aguardando apenas o dia em que tu descubras que o teu fim... Também é em mim.

Saulo Sisnando
18 de janeiro de 2015.

21h48