quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E se...





Ontem, nesta ansiosa angústia que tem sido minhas noites, tive um sonho estranho.
Minha mãe apareceu para mim. E ela estava jovem. Numa juventude tão perfeita em detalhes que é impossível se reproduzir, quando envelhecemos junto das pessoas.
Com aquele olhar de viés, que me acompanhou por toda a vida e que hoje me faz tanta falta, disse-me que se eu estava tão triste... Se tudo tinha dado tão errado... Ela me daria a chance de fazer de novo. Reviver tudo. Recompor meu caminho com novos detalhes.
Deslizou as mãos pelas coxas, como se alisasse as dobras do vestido de florzinha, e falou-me que se deitasse em seu colo e fechasse por um instante os olhos, ao acordar seria uma criança.
Pensei em regressar e soube que se retrocedesse, eu esqueceria as coisas ruins, mas também não saberia das felicidades que tive na vida.
Se eu pudesse não ter conhecido o João, e não tivesse vivido tantos momentos difíceis: onde estaria o Flavio? Afinal meu melhor amigo apareceu graças ao mais triste momento de minha vida.
Entendi que a vida é uma linha que não se repete. A nossa história é uma fileira tênue desenhada por uma imprecisa sucessão de coincidências e gloriosos acidentes. Se voltássemos no tempo, decerto os acasos seriam diversos. As conquistas e perdas, outras.
Se eu pudesse pular as recordações ruins deste meu passado, não chegaria às boas memórias e conquistas deste meu presente.
Quem me garantiria que eu estaria na mesma sala da Neyara?, que, por um imprevisto, foi transferida de turma na sétima série e até hoje conversa diariamente comigo pelo fone.
Se eu tivesse feito teatro desde cedo... Se eu tivesse ido pro Rio jovem... Onde estaria o Miguel?
E se uma gripe me tivesse privado de conhecer o Marcus, um acidente tivesse tirado a vida dos meus pais e um esquecimento me tivesse feito marcar questões erradas no concurso do T.J.E. e não conhecesse a Cris, a Tânia, a Dra. Laura.
Decidi, de coração partido, não deitar no colo da minha mãe jovem e acordei adulto. Certo de que não sou o mais feliz, nem o mais importante, nem o mais belo, nem o mais magro. Porém com muito apego e carinho às coisas e pessoas que estão a minha volta. Sei que se tivesse voltado no tempo, outras boas lembranças também existiriam. Mas não consigo imaginar minha existência sem estes meus amigos, que o acaso colocou no meu caminho.
É bom descobrir que você tem orgulho das próprias lembranças. É maravilhoso ter um sonho destes e se deparar com uma vida com mais compensações do que desenganos.
Obrigado, meus amigos, do fundo do meu coração, por estarem ao meu lado nesta existência. E que permaneçam juntinhos a mim por muito tempo, me ajudando a enfrentar os novos e desconhecidos acasos que meu destino ainda reserva.

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