sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A crônica do amor platônico ou A mais complicada matemática


Ô coisinha complicada é esse tal amor. Você já pensou em quantas pessoas existem na sua rua ou no seu bairro? Centenas, certo? Pense então na cidade em que você vive, deve haver milhões de pessoas mais ou menos iguais a você. Se pensarmos no país, serão centenas de milhões; e no mundo, então, nem se fala!, são não sei quantos bilhões. Imagine que nessa infinidade de pessoas que existem, você escolheu ‘uma’ para amar. Agora vamos passar pela cabeça a remota possibilidade de que mesmo existindo esse oceano de pessoas, ocorreu a conjunção cósmica perfeita que fez o ser que você ama te amar de volta. Matematicamente parece ser um resultado bem improvável pensando nesses bilhões corpos que passeiam pelo mundo. Eu creio que é por isso que tem tanta gente sofrendo de amor (escrevo este texto porque sofro por um!), pois é uma sorte danada você amar exatamente a pessoa que te ama. Se você é um dos felizardos dessa loteria mais difícil que a MegaSena: agarre esse homem, case logo e tenha muitos filhos, porque a sorte pode não bater de novo na sua porta.


Agora se você é um dos sofredores, um dos ímpares dessa bizarra matemática; resta esperar! Esperar o telefone tocar, mesmo tendo certeza de que ele não vai ligar, resta abrir a caixa de e-mails a cada 5 minutos para ver se ele não respondeu aquele cartãozinho virtual gracioso que você enviou anexado a uma mensagem milimetricamente calculada. E quando chega o correio (o tradicional), é aquele alvoroço, querendo ver se ele não mandou alguma carta, mesmo sabendo ele não faz a menor idéia de onde você mora e mesmo que tenha a certeza de que ele não é tão romântico a ponto de mandar uma carta de amor; pelo simples motivo que ele não te ama! No entanto, não custa nada sonhar com isso, pois não há nada mais belo que uma carta de amor. Enfim, resta sofrer! Resta mandar mensagens pelo celular perguntando como ele está passando (e ele nunca responde!), resta dirigir prestando bastante atenção pelas calçadas porque um dia ele disse que te viu passando de carro, resta se arrumar com a roupa mais bonita para passear no shopping, porque da última vez que você o encontrou foi na praça de alimentação do Iguatemi.


Há horas em que se tem certeza de que tudo isso é karma de alguma encarnação passada, onde ele foi arrasado, espezinhado, pisado e maltratado por você. Pronto, é isso! Agora nessa vida você é quem vai ter de pagar pelo que fez. Só mesmo um karma de vida passada para que ele sempre te encontre no seu pior dia... Quando você foi ao cinema com aquela blusa vermelha de listras amarelas que te deixa enorme de gorda (um bolo-fofo), quando ele vai justamente assistir aquela peça de teatro ridícula que você fazia parte e todos os seus amigos comentaram que você parecia uma sapatão. Só mesmo karma, para explicar a sua voz que treme tanto todas as vezes que você o encontra; só karma, para fazer com que na hora H você esqueça todos as perguntas e opiniões que fariam ele te achar tão inteligente. Só mesmo sendo um karma dos brabos!


Apesar de eu odiar frases conformistas, na mesma proporção em que odeio as vidas passadas, creio que no final vai acabar dando certo e alguém lá em cima deve estar guardando alguma para você. Sei lá, você vai ganhar o prêmio jabuti por causa do romance que escreveu inspirado nesse amor; vai emagrecer, ficar linda e ele vai cair na real de que sempre te amou; ou talvez algo melhor, você vai lá na farmácia comprar algum remédio para as suas arritmias que recomeçaram e de repente pára ao seu lado um homem maravilhoso (que também está sofrendo de amor!). E ele esta ali, parado, comprando um remédio para dor de cabeça e, sem segundas intenções, você acaba ensinando aquele chá milagroso que a sua mãe sempre fazia. Vai cada um para a suas casas e após alguns dias ele te liga para dizer que nunca mais sentiu aquelas terríveis dores e que deve essa grande felicidade a você. Então em 5 minutos no telefone, já deram várias gargalhadas, você já sabe que ele detesta purê de batata e que, como em seus sonhos, ele lê poemas do Mario Quintana. Bem, aí marcam um cinema, ele a vê com uma roupa maravilhosa e com todas as suas opiniões e frases feitas que ele finge não notar que são feitas só para te agradar. Depois disso, vocês mandam pras cucúias a dificílima matemática dos milhões e descobrem que nem precisavam ter sofrido tanto.


Mas se esse lance de vidas passadas for sério mesmo, permaneço fiel àquela frase conformista. Dê um tempo, espere, faça coisas: matricule-se em aulas de fotografia, escreva bem muito, dedique-se ao estudo do Glam-Rock inglês ou mergulhe na oceanografia. Leia muitos livros de astronomia, tente entender as várias dimensões do universo e a teoria da Ressonância Mórfica, viaje, veja de perto os quadros do Francis Bacon. O tempo vai passando, passando, e você pode ir embora. Se mudar lá pro Nepal depois que você passou no Instituto Rio Branco e virou embaixadora. Talvez ele vá mesmo lá pros Estados Unidos fazer aquela pós-graduação em reengenharia de software, talvez ele se mude para sempre pra Dinamarca. Vão ficar vivendo, independentes um do outro, até o belo dia em que, numa lotada sessão de cinema, aquele belo coroa alvo senta ao seu lado e você se vira e reconhece aqueles olhinhos de foca, aqueles dentes que não estão mais presos no aparelho e, acima de tudo, as covinhas que ainda são lindas. Ele vai olhar para você e não te ver com a sua melhor roupa (mas também não vai te ver com aquela blusa vermelha medonha!), as frases prontas continuarão fugindo da memória. Mas vai gostar de você mesmo assim, então vão chorar pelo tempo perdido e se consolar pelo grande caminho de tijolos amarelos que ainda resta pela frente, caminharão de mãos dadas, num passo acertado de quem não tem tempo a perder. Um belo final, não?! Só precisa ter paciência.

Portanto, meu amor, depois disso tudo, só me resta dizer uma última coisa: “eu estou te esperando nalguma sessão de cinema!”
Saulo Sisnando escrevendo como
Maria Eduarda

Um comentário:

  1. Gostei muito desta cronica. A questão dos emails, telefones, e angustias são realmente assim. Mais me pergunto, se não é querer maltratar demais o coração,esperando que um dia esse amor se concretize. abraço.

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