O PRINCÍPIO DA ARTE
Sou ator, diretor
de teatro e dramaturgo há quase vinte e cinco anos. Sempre ouço comentários
sobre minha dedicação, sobre o quanto desejariam amar algo tanto quanto eu amo
o teatro. E eu, diferente de muitos, amo o teatro não por causa do aplauso, mas
pelo seu poder de salvar vidas. São incontáveis os exemplos que presenciei do
teatro salvando pessoas ao longo desta jornada.
Mesmo com essa
paixão palpável, outro dia, num momento de disparate psicológico, quase uma
brincadeira, postei uma foto no Instagram dizendo que abandonaria o teatro para
me dedicar apenas à psicanálise, que comecei a estudar agora.
Nossa, comoção
total!
Mas me
surpreendeu o fato de as pessoas não estarem escrevendo coisas como “continue”,
ou “é difícil, mas é importante lutarmos pelas artes cênicas”, ou ainda “você é
importante para a arte paraense”. Não. O celular explodiu de likes e
comentários — algo, aliás, que nunca acontece quando falo de uma peça — com
pessoas me parabenizando pela “nova” e “correta” escolha.
As mesmas pessoas
que curtiram o post, curiosamente, são aquelas que nunca se sentaram numa
plateia para me ver. Acredito, de verdade, que me queiram bem e sou grato por
cada mensagem de incentivo. É bom saber que, se um dia eu realmente quiser
largar o teatro, terei todo o apoio possível. Mas, sozinho e olhando para
tantas curtidas, uma ideia incômoda começou a me atravessar: existe um certo
alívio, talvez até um prazer escondido, em ver um artista desistir?
Um gozo
silencioso que não se diz, mas se sente quando um artista desce do palco, fecha
o caderno, abandona a escrita de um livro. Esse fim alivia, talvez, as perdas e
desistências de quem assiste de longe. Afinal, a queda do sonhador dá sentido à
renúncia de quem nunca teve coragem. Sartre falava disso, não?
Teatro não é
capricho de artista. Nunca foi. É necessidade vital, como respirar. Ao fazer
arte, simbolizo minhas dores e ressignifico minhas ausências. Talvez por isso
doa tanto, em quem vive afastado dos próprios desejos, perceber que eu existo.
Freud fala sobre
vivermos sob a égide do princípio do prazer, não como um ideal moral, mas como
funcionamento do aparelho psíquico. Eu sinto, no entanto, que vivo sob o
princípio da arte, porque a arte nasce do desejo. É um destino das pulsões, um
prazer transformado e socialmente compartilhável. Foi assim que aprendi a
existir. E desejo, de verdade, que cada um encontre coragem de viver o seu
prazer, antes que o sonho adormeça de vez.
Saulo Alexandre Sisnando
06.01.2026

Que leitura necessária para entendermos e fazer entender oq realmente nos mantém na arte
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